12/05/2015

Vou para Aquele que me enviou… (Jo 16,5-11)

É a despedida da Última Ceia. Jesus anuncia que, chegando ao fim de sua missão terrena, está prestes a voltar para o Pai. Chega ao fim aquele período histórico em que sua presença física podia ser compartilhada pelos discípulos. Durante cerca de três anos, viveram a experiência narrada por São João: “nossos olhos viram, nossos ouvidos ouviram e nossas mãos têm como que apalpado…” (1Jo 1,2.) Agora, porém, é o adeus…

Para os consolar, o Mestre acena-lhes com a promessa do Espírito Santo, a quem chama de Paráclito ou Consolador. Mas a tristeza invade os corações dos discípulos. Apegados à pessoa de Jesus, não conseguem alegrar-se com a volta do seu Senhor para o Pai, tampouco com o dom do Espírito.

O que nos deveria impressionar, acima de tudo, é a consciência clara que Jesus manifesta acerca de sua filiação divina e a sua certeza de que, apesar da iminência da paixão e da cruz, não será abandonado pelo Pai. É igualmente clara a convicção de que lhe foi dada uma missão: sente-se o Enviado do Pai.

Esta ligação ou relação entre Jesus e seu Pai costuma ficar diluída em nossas pregações. Mesmo ao admirar Jesus como mestre da Palavra, dono de superpoderes (a ponto de dominar os elementos e curar as enfermidades!) ou profeta que arrasta multidões, nem sempre mantemos viva diante de nossos olhos a percepção de que o Pai age em Jesus. Por Jesus. Com Jesus.

Mas Jesus sabe disso: nada faz sem o Pai (Jo 14,31). Ora ao Pai antes de escolher seus discípulos (Lc 6,12-16). Dá graças ao Pai pela alegria das experiências missionárias dos apóstolos (Lc 10,21). Agradece antecipadamente ao Pai para, a seguir, chamar Lázaro para fora do túmulo (Jo 11,41-42). Abandona-se ao Pai na hora de sua angústia (Lc 22,42). E é dessa maneira que ele nos dá o modelo de vida cristã: uma existência que se desenrola sob os olhos amorosos de Deus, na estatura de filhos que tudo lhe devem e, por isso mesmo, vivem em permanente ação de graças.

Tenhamos, ainda, em conta este fato: em todas as suas orações registradas nos Evangelhos – com exceção do Salmo recitado na cruz (Mc 15,34) – Jesus sempre se dirige a Deus como o seu Abbá, termo da linguagem infantil com que uma criança de colo se dirige ao papai.

Enfim, o cristianismo não se reduz a uma doutrina ou tábua de valores morais. O cristianismo é, acima de tudo, uma filiação…

Orai sem cessar: “Abbá, ó Pai!” (Mc 14,36)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.