1º/04/2015 

Vou celebrar a ceia em tua casa… (Mt 26,14-25)

Deixemos de lado o filho da perdição e prestemos atenção à presença do Senhor em nossa mesa, celebrando conosco a ceia pascal. A narração é de Lev Gillet:

“Jesus e os Doze estão presentes na aliya, o quarto de cima, em torno da mesma mesa. Prolonga-se este crepúsculo de março ou abril. Lâmpadas rituais foram acesas. O sol desapareceu, mas, lá fora, sobre as colinas, sobre os campos, ainda se espalham rastilhos de suave luz.

Mas a noite cai e, quando um dos Doze sai, ela já veio.

A ceia pascal chega ao fim. Foram cumpridos os ritos prescritos. As conversas se amortecem e param. Aqui e ali, algumas palavras ditas a meia voz ainda se fazem ouvir. Depois, o silêncio. A voz do Mestre se eleva. Ele pronuncia palavras que ninguém pudera prever, que jamais tinham sido ouvidas. Ao refazer, com um pouco de pão e uma taça de vinho, certos gestos simples de todos os dias, ele lhes comunica uma significação nova. Fala de seu corpo dado e de seu sangue derramado para a remissão dos pecados.

O Mestre ergueu os olhos para o Pai, enquanto suas mãos se elevam um pouco, também elas, e depois se estendem com recolhimento, contidas, para os elementos da oblação, num gesto que sobriamente aponta e abençoa.

E agora o Mestre abaixa os olhos semicerrados para a mesa e os apóstolos. Ele depôs suas duas mãos sobre a mesa. É o dorso das mãos que repousa, estende-se sobre a madeira. O interior das mãos está aberto, apresentado aos apóstolos. Assim, as mãos estão estendidas para eles.

É um gesto de generosidade, um gesto de convite.

A expressão do olhar do Mestre corresponde ao gesto. O olhar, os lábios (cujos cantos não estão sem tristeza), a cabeça ligeiramente inclinada, tudo no Senhor contribuiu, de modo indizível, para exprimir o apagamento, o abandono, a oferenda. O Salvador doa. Ele se doa. Todo inteiro, ele é dom.

O Mestre se levanta. E eis que, tendo nas mãos o prato e a taça, ele se aproxima de cada um dos discípulos, um após o outro: ‘Tomai…’ (Mt 26,26) A cada um ele pronuncia em voz baixa uma frase que os outros não podem ouvir, e só é compreendida por aquele a quem é dita.

Eu estou lá, também eu. Vejo-me presente entre os discípulos. Irei tomar o que me é oferecido? Terei eu esta presunção? Que palavra secreta o Mestre me dirá? Hesito, e depois eu me decido. Avanço um pouco e espero.

O Mestre se aproxima de mim. Ergue os olhos. Envolve-me com apenas um olhar rápido. De novo ele abaixa os olhos. Estende-me os dons que ele oferece a todos e, quando eu os tomo, ele me diz como em um murmúrio: ‘Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’.”

Orai sem cessar: “Preparas uma mesa para mim…” (Sl 23,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.