Vós vedes e não credes… (Jo 6,35-40)

Ver e crer – dois verbos que costumam andar juntos. Após a ressurreição de Jesus, um de seus discípulos chegou a afirmar: “Se eu não vir a marca dos pregos em sua mão, não acreditarei!” (Jo 20,25b.) Diante do casulo vazio formado pelas bandagens endurecidas que tinham envolvido o corpo de Jesus, o próprio evangelista descreve sua reação: “Viu e creu”. (Jo 20,8.)

Exatamente este é o motivo da queixa de Jesus frente à multidão: “Vós me vistes, mas não credes”. Os sinais visíveis deveriam ter estimulado o ato de fé, mas não basta assumir a atitude de frio espectador. Louis Bouyer comenta esta passagem:

“Destas primeiras palavras, nós extraímos uma constatação: os homens veem o Filho e não creem. Ora, a vontade do Pai é que todo aquele que, vendo o Filho, nele crê, tenha a Vida eterna. Talvez tenhamos insistido demais sobre o papel dado por São João à ideia de ‘ver’ o Filho. Sem cair no mesmo exagero, não devemos ignorar a insistência com que ele volta a este ponto.”

O verbo grego empregado por São João [théoraô] não designa um olhar distraído, ocasional, mas carrega o sentido mais forte de “contemplar”, o que exige, talvez, um esforço de penetração por parte do espectador. Esta “intenção” poderia estar embutida naquele repto que Filipe fizera a Natanael: “Vem e vê!” (Jo 1,46)

A 1ª Carta de João se refere a este olhar “penetrante” em direção a Jesus: “Aquele que vimos [eorákamen] com nossos próprios olhos…” (1Jo 1,1) Trata-se de um encontro que envolve os sentidos humanos – “nossos ouvidos ouviram… nossas mãos apalparam…” -, de modo que a razão seja auxiliada e reforçada pelo aparato sensorial, como se, de algum modo, o próprio Deus “forçasse” o encontro com o Salvador.

“E parece – continua Bouyer – que, graças a esse encontro com o Filho, cuja encarnação nos dá sua possibilidade, nossa contemplação do Filho realça o vínculo que existe entre Ele e nós no pensamento do Pai, vínculo manifestado pela fé que nasce, então, em nós. Se nós tivéssemos tão somente esta passagem, sem os detalhamentos oferecidos em seguida, ela bastaria para mostrar que a adesão a Cristo não é apenas um ato do homem. O ato de fé realizado pelo homem é o efeito produzido nele por um ato do Pai. Porque o Pai tinha dado o crente ao Filho que ele ‘enviou” é que o crente veio, viu e creu.”

Daí a oração de Paulo, pedindo que Deus “ilumine os olhos do coração” dos efésios (cf. Ef 1,18). Sem esse olhar iluminado, não chegamos à fé no Salvador.

Orai sem cessar: “Tudo isto eu vi quando apliquei meu coração…” (Ecl 8,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.