Vinho novo em odres novos… (Lc 5,33-39)

A Primeira Aliança – imagem nebulosa e germe incompleto da Nova e Eterna Aliança – é aqui representada pelos odres velhos. Em odres velhos, vinho velho: a antiga promessa do Messias feita aos patriarcas da primeira Aliança, aqueles sacrifícios de bodes e novilhos, interminavelmente renovados, os dez mandamentos gravados friamente em tábuas de pedra no Sinai e o fardo pesado da Lei.

Em odres novos, vinho novo: a presença palpável do Salvador, o sangue de Jesus derramado em definitivo no Calvário, uma vez por todas, e o fardo leve do amor…

Bem, o vinho novo borbulha, fermenta, não pode ser contido em odres velhos, pele seca, encarquilhada, pronta a se romper com a efervescência do vinho. Por isso mesmo, é condição essencial que, antes de acolher a “novidade” de Jesus, nossos corações sejam transformados, renovados, rejuvenescidos pelo Espírito Santo.

De fato, vivemos hoje duas Igrejas. De um lado, a Igreja de rezas e novenas, procissões e promessas, ladainhas e fórmulas impressas. Formal, burocrática, olhos presos no passado. De outro lado, uma Igreja que decidiu sair às ruas, acolher os mendigos, visitar os presidiários, impor as mãos aos enfermos, anunciar Jesus no rádio e na TV.

Se eu sou um odre velho, permaneço preso à velha medida e rejeito a “novidade”. Julgo a nova Igreja como revolucionária e iconoclasta, digo que é barulhenta e agitada, penso que ela está se sujando na lama do mundo. E suspiro com saudades do latim…

Ora, quando o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, ensinou-nos a rezar a Deus, pedindo por um “novo Pentecostes”, isto é, invocar um novo derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja, que lhe permitisse abrir as janelas trancadas e fazer contato direto com o mundo. João Paulo II, em sua peregrinação pelo planeta, falou tantas vezes na chegada de uma “nova Primavera” para a Igreja.

Pois ela está aí. Já passou as portas. Já pulsa dentro de nós. Não é difícil perceber os sinais de sua nova brotação, especialmente na vida dos movimentos e das Comunidades Novas, onde o Evangelho se transforma em diaconias, isto é, aquele serviço que Jesus antecipava ao lavar os pés de seus apóstolos.

Quando a Igreja se mostra realmente renovada? Quando amarra a toalha na cintura e se põe a servir…

Orai sem cessar: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.