Vimos sua estrela… (Mt 2,1-12)

Eram outros tempos. Não havia mapas nem GPS. Navegantes e viageiros orientavam-se pelos astros. Na imensidão do deserto, era preciso contemplar as noites estreladas para encontrar um rumo. Ao erguer os olhos para o alto, os viajantes definiam seu caminho terrestre.

O Concílio Vaticano II reconhece que, ao longo da História humana, Deus irradiara uma luz que se reflete “em lampejos daquela Verdade que ilumina a todos os homens”. (Nostra Aetate, 2.) É assim que outros povos, fora do círculo estreito do Povo Escolhido, poderiam perfeitamente ter alguma noção acerca de um Enviado de Deus à humanidade.

Se Israel era portador da Palavra de Deus, que incluía os sonhos dos patriarcas e os oráculos dos profetas, os gentios poderiam entrever luzes divinas refletidas na Criação (cf. Rm 1,19-20). Assim, uma conjunção de astros celestes que se manifestava como uma estrela e brilho excepcional, serviria de “sinal” aos magos que vieram do Oriente.

A reflexão teológica da Igreja sobre este Evangelho sempre se fixou em um ponto central: a salvação que Deus nos oferece em Jesus Cristo tem um caráter universal. Isto é, não é apenas ao Povo Escolhido, ao Israel da Primeira Aliança, que o Filho de Deus é enviado.

Ao celebrar a Epifania do Senhor (termo grego que traduzimos como “manifestação”), a Igreja exalta a dimensão universal da salvação. Ninguém está excluído. Todo nacionalismo ou qualquer sonho de superioridade étnica ou cultural é prontamente abandonado, pois o batismo cristão lança por terra as diferenças humanas (cf. Rm 10,12; Gl 3,28)

Na abertura da Primeira Parte do “Catecismo da Igreja Católica”, uma ilustração reproduz um afresco da catacumba de Priscila, em Roma, do Séc. III. É uma das mais antigas imagens da arte cristã, mostrando a Virgem Maria com o Menino ao colo. A seu lado, um profeta aponta para a estrela com a mão direita, enquanto a esquerda traz um rolo: são os dois “caminhos” de que dispomos para chegar à revelação de Deus – a Criação e a Palavra revelada. Os pastores receberam a Palavra pelos anjos, os magos acharam o caminho pela contemplação da estrela.

Assim, o Salvador está ao alcance de todos. Sem exceção.
Orai sem cessar: “Senhor, em tua luz vemos a luz!” (Sl 36,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.