Uma só carne… (Mc 10,1-12)

Sim, Moisés “amaciara” a questão. Deu forma oficial (cf. Dt 24,1-4) ao processo de repudiar a esposa na qual via algo de “vergonhoso”. O estatuto inicial – a indissolubilidade – era abandonado diante da incapacidade de ser respeitado por homens duros de coração. Ao permiti-lo, porém, Moisés obrigava o marido a agir de tal modo que a repudiada tivesse nova oportunidade de constituir família. Era este o objetivo do libelo de divórcio. O homem não podia simplesmente expulsar a esposa de sua casa. Vejam o que escreve o Ir. Éphraim:

“O guet, o bilhete de divórcio, é liberado pelo Beth din, o tribunal rabínico; trata-se de um ato religioso que servirá à mulher como de um “passaporte” para sua dignidade: ela não será a repudiada que se pode, hoje, encontrar nos meios semíticos não-judaicos, a mulher que ninguém mais quer, porque ela já serviu e desagradou, como um objeto que se joga fora. A mulher judia é protegida pelo guet, como no casamento, e seus direitos estavam garantidos pelo contrato de matrimônio chamado ketubá. Segundo os rabinos, ela deve se casar de novo após um espaço de 91 dias, a fim de se assegurar de que não estava grávida de seu primeiro marido. A lei deseja a felicidade da mulher que foi repudiada.” (Jésus, Juif Pratiquant, p. 266)

É dentro deste quadro social e religioso que os fariseus perguntam a Jesus se era lícito repudiar a esposa. De fato, uma “questão disputada” entre os rabinos daquele tempo. Jesus surpreende seu auditório ao recolocar a questão antes da “liberação” de Moisés: voltando ao “princípio” – isto é, ao desígnio original de Deus para o homem e a mulher -, o Rabi da Galileia aperta os parafusos: não há como separar aquilo que foi unido pelo próprio Deus. Isto é, o casamento é bem mais que um contrato civil, documento de compra e venda, um contrato de aluguel, que se possa rasgar ou anular quando conveniente.

Jesus se apoia no texto do Gênesis (2,24), sublinhando que o casamento une duas naturezas em uma só: “serão uma só carne”. Se tentarem separar marido e mulher, serão ambos rasgados, rompidos na mais profunda estrutura de seu ser. Cada um irá para seu lado levando pedaços do outro. Como na letra de Chico Buarque: “Ó metade amputada de mim!”

Uma frase de S. Paulo (1Cor 7,14a) faz pensar na profundidade e no realismo essencial dessa união, quando dá uma razão para que não se separem a mulher cristã e o marido pagão, e vice-versa: “Porque o marido que não tem a fé é santificado por sua mulher; assim como a mulher que não tem a fé é santificada pelo marido que recebeu a fé”.

Ainda duvido da indissolubilidade do matrimônio?

Orai sem cessar: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores.” (Sl 127,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.