Um só homem pelo povo… (Jo 11,45-56)

Desde o Antigo Testamento, os pecados do povo de Israel eram “apagados” com o sangue de um animal. Suspenso no poste por uma pata traseira, o cordeiro (ou bode, cf. Lv 9,3; 16,8) tinha sua veia jugular seccionada, recolhendo-se o sangue em uma bacia, posteriormente aspergido sobre a assembleia reunida como rito de purificação e penitência. Na perspectiva deste ritual, um pagava por todos. E tudo parecia muito justo.

A História humana registra a existência de incontáveis bodes expiatórios, individuais e coletivos. Um milhão e meio de armênios foram massacrados pelo Império Turco-otomano. Nos terríveis campos de concentração nazistas, milhões de judeus acabaram exterminados nas câmaras de gás.

Entre nós, os civilizados, o vizinho estranho ou diferente, o pobre e o pivete, o migrante e o estrangeiro são facilmente eleitos como nossos bodes expiatórios. Mesmo em pequena escala, também nós estamos sempre procurando por alguém que possa ser culpado ou responsabilizado por nossos pequenos mal-estares.

Neste Evangelho, ainda que inconscientemente, o Sumo Sacerdote Caifás profetiza a respeito da missão do Salvador: “Interessa que morra um só homem pelo povo!” E o próprio evangelista João interpreta de imediato essa profecia: a morte de Jesus era o sacrifício que traria de novo a unidade dos filhos dispersos com o Pai.

Depois da manhã de Pentecostes, o Espírito Santo convenceria a Igreja, sempre mais, a respeito do sentido salvífico da morte de Jesus. É o apóstolo Paulo quem assevera: “Se por um só homem, pelo pecado de um só [Adão] reinou a morte, com muito maior razão aqueles que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo!” (Rm 5,17)

Claro que Caifás pensava em outra coisa… Diante dos milagres de Jesus, o povo o queria como rei (Jo 6,15). A pretensão de ser o rei dos judeus seria gravada no título da cruz do Calvário como o motivo da morte de Jesus. Pilatos o interrogaria a esse respeito (Jo 18,33). E Caifás temia que a agitação crescente e uma possível sublevação provocassem violenta reação das legiões romanas estacionadas na Palestina. A garantia da paz e da manutenção do status quo pactuado entre os romanos e as autoridades do Templo era a eliminação de Jesus. Sua morte garantiria a paz para todos…

Mais uma vez, a amorosa Providência divina iria atuar por meio dos projetos humanos, mesmo quando estes incluem o ódio e os mais vis interesses. Deus joga para perder, sabendo que vai ganhar. Aliás, esta é a marca do Amor…

Orai sem cessar: “Rompeu-se a armadilha e nos achamos livres!” (Sl 124,7b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.