Tu és o meu Filho! (Mc 1,7-11)

Este Evangelho nos põe diante de uma cena de “revelação”: apesar das aparências humanas, esse aprendiz de carpinteiro que mergulha no Jordão é o Filho de Deus. E a voz que o identifica é a voz do Pai, a mesma voz que falava da nuvem ao povo de Israel a caminho da terra prometida.

Cromácio de Aquileia [ca. 340-307 d.C.] exclama: “Como é grande o mistério deste batismo celeste! Dos céus, o Pai se faz ouvir, o Filho aparece sobre a terra, o Espírito se mostra sob a forma de uma pomba. De fato, não há verdadeiro batismo nem verdadeira remissão dos pecados ali onde não está a verdade da Trindade, e a remissão dos pecados não pode acontecer onde não se crê na Trindade perfeita.”

“O batismo que dá a Igreja – prossegue o Padre da Igreja – é o único e o verdadeiro; e ele é dado uma única vez. Basta que alguém aí mergulhe uma só vez, ei-lo puro e renovado; puro, porque se desembaraçou da sujeira dos pecados; renovado, porque ressuscitou para uma vida nova, após se livrar da velhice do pecado.”

Cromácio de Aquileia faz um paralelo entre duas passagens pelo Jordão: “A graça do batismo foi, outrora, misticamente prefigurada quando o povo eleito foi introduzido na terra prometida, passando pelo Jordão. Tal como então, diante do povo eleito que seguia o Senhor, foi aberto um caminho para introduzi-lo no país da promessa, assim agora, pelas águas desse mesmo rio, o Jordão, abre-se a primeira estrada que nos conduz para a feliz terra prometida, ou seja, para este Reino celeste que nos foi prometido”.

Em grego, escrevem-se do mesmo modo os nomes Jesus e Josué. Daí, a nota de Cromácio: “Para o povo eleito, Jesus, isto é, Josué, foi o guia através do Jordão; para nós, é Jesus, o Cristo Senhor, que por seu batismo é o guia da salvação eterna, ele, o Filho único de Deus, bendito pelos séculos dos séculos”.

Ainda que Jesus se misture à fila dos pecadores que, atendendo ao convite de João Batista, aceitam um banho ritual em sinal de sua abertura ao Reino que está próximo, na pessoa de Jesus, este – sem pecado – não precisava do mesmo banho. Mas Jesus mistura-se a nós em uma comprovação cabal de sua solidariedade conosco. A tal ponto que Paulo irá dizer: “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus”. (2Cor 5,21)

Orai sem cessar: “Vinde à nascente das águas!” (Is 55,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.