Tomemos posse de sua herança! (Mt 21,33-43)

Na hora de receber os frutos da vindima, o Senhor da vinha enviou seus servos: foram espancados e apedrejados. Em atitude extrema, envia seu próprio Filho. Num misto de cupidez e de ódio, os vinhateiros decidem matá-lo: “Tomemos posse de sua herança!”

Mais uma vez, os homens são arrastados pela ilusão de tomar posse dos bens de Deus como raptores, de forma autônoma, “como se fossem deuses” (cf. Gn 3, 5). Para atingir seu objetivo, não hesitam sequer diante do crime. Tanto os profetas quanto o Messias têm o seu sangue derramado.

Ora, o Filho do Pai nos foi enviado exatamente para que fôssemos seus coerdeiros! Num ímpeto de filantropia, Deus queria que partilhássemos em tudo da vida divina, mergulhados nos tesouros de seu amor. Não precisávamos usurpar aquilo que desde o princípio era puro dom.

Assim comenta o teólogo Helmut Gollwitzer: “Ao rejeitar o Cristo, o homem busca destronar a Deus para tornar-se seu próprio patrão. O envio do Filho e seu destino manifestam a profunda intimidade entre o homem e Deus. Deus deve morrer a fim de que o homem possa viver segundo seus próprios desejos. Assim, o homem deve matar Deus. Cada passo na desobediência revela sua intenção de suprimir Deus para atingir aquilo que acredita ser a verdadeira vida, usurpando a herança de Deus, cujo lugar procura tomar”.

Que fará o Dono da vinha? – pergunta Jesus. Seus interlocutores julgam que a questão se resolve por uma áspera vingança [um triste fim…] da parte do Poderoso.

Naturalmente, seus ouvintes – os sumos sacerdotes e anciãos do povo (cf. Mt 21,23) – nem de longe imaginam que a misericórdia de Deus possa ser infatigável… Nem imaginam que o Filho nos foi entregue para dar sua vida e nos resgatar da morte… Em lugar de um “tarde demais”, observa Gollwitzer, a paciência divina nos oferecerá um “ainda”…

Quem conhece as vinhas sabe muito bem que a uva precisa ser pisada, ou não teremos o vinho da alegria. É por isso que Cristo se deixa pisar, esmagado no Horto, transpassado no Calvário, para que sejamos saciados por seu sangue.

Se a vinha foi confiada a “outros” – o novo Israel da Igreja -, a História ainda reserva espaço para que seja salvo todo o Israel. Deus não rejeitará seu povo…

Orai sem cessar: “Israel é meu filho, meu primogênito!” (Ex 4,22)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.