17/06/2015

Teu Pai, que vê no escondido… (Mt 6,1-6.16-18)
Desde a infância, aprendemos que Deus é onisciente. Ele sabe tudo. Nada escapa a seu olhar. Na escola primária, a professora de religião – ainda que bem-intencionada – representava a Deus para nós com o desenho de um triângulo em cujo interior figurava um grande olho.

Confesso que não era agradável sentir-me vigiado por esse olho intemporal. Deus nos era apresentado como um policial, não como um Pai.

Hoje, quase 70 anos depois, percebo que há muitos outros olhares fixos sobre nós. Não me refiro às câmeras de vigilância que se multiplicam por toda parte, mas a todas essas “entidades” às quais pagamos pesado tributo. É o caso da opinião pública, da moda da estação, do politicamente correto. Diante desses “olhares”, sentimo-nos constrangidos a cobrir nossa pessoa com máscaras de ocasião. Estamos permanentemente preocupados com o “que vão dizer/pensar de nós”…

No Evangelho, quando Jesus nos alerta sobre o risco da hipocrisia, certamente ele teria em mente os atores do teatro grego que chegara até a Palestina helenizada. Pertinho de Nazaré, em Cesareia de Filipe, o teatro de arena mostrava atores que cobriam o rosto com máscaras para fingir a dor e a alegria, o trágico e o cômico. Claro, o exterior do artista não correspondia ao interior. Eram sentimentos fingidos.

Aí está o alerta de Jesus: é inútil o esforço de aparentar uma realidade que não é a nossa. Apesar da roupa fina e da maquiagem cara, somos o que somos. O olhar de Deus repousa sobre todos e penetra até o íntimo de nós. É como diz o salmista: “Senhor, tu me sondas e me conheces… penetras de longe meus pensamentos… Para onde fugirei de tua presença?” (Sl 139,1b-2.7)

Por isso mesmo, nossas liturgias costumam ser iniciadas por um ato penitencial, quando imitamos os anawim, os pobres do Evangelho, ao bater no peito: “Tem piedade de mim, que sou pecador!” É neste momento que cresce a minha possibilidade de ser desmascarado pela Graça e de abrir meu coração ao perdão e à salvação.

Não raro, alguém diz, referindo-se ao sacramento da confissão: “Confessar o quê? Não matei nem roubei!” Ora, como somos cegos aos nossos próprios defeitos, fraquezas e… pecados! Quem consegue evitar os pensamentos que julgam, repelem e condenam o infeliz do próximo? Quem está livre de sentir-se superior aos demais?

Jesus recorda em especial o risco que corremos ao fazer o bem e jogar no lixo todo o valor de nossas ações por causa da propaganda e do exibicionismo que as acompanham. Até o bem que fazemos resulta da Graça que nos é dada. Como disse o santo, “se eu pequei, Deus me perdoou; se não pequei, Deus me sustentou”.

Orai sem cessar: “Senhor, tu conheces todos os meus caminhos!” (Sl 139,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.