É assombroso que nos dias atuais tenhamos de conviver com o martírio cristão como se estivéssemos nos primeiros séculos da cristandade. Tirar de uma pessoa o direito de praticar e viver a sua fé, seja ela cristã ou de qualquer outra religião, é um atentado não somente à liberdade de expressão religiosa, mas um atentado ao direito natural de escolha e de identidade.

Temo que o terrorismo paralise o mundo. Tenho medo que o egoísmo que nos cerca no nosso “pequeno mundo” apague a nossa visão ao que acontece para além das nossas fronteiras. Falta a sensibilidade evangélica e humanitária de sentirmos a dor e o sofrimento do outro. Estamos perdendo a compaixão, não uma compaixão infantil, mas aquela comprometida com os dramas da humanidade. De dentro do nosso conforto lamentamos as mortes e os horrores que acontecem mundo a fora, mas já não nos sentimos mais indignados a ponto de levantarmos a voz.

Fala-se pelos meios de comunicação de ações terroristas em nome da religião. Eu digo que existem ações terroristas de pessoas ou grupos anti-religiosos. Nenhuma religião incita a guerra ou o terror. Deus não quer a morte estúpida, cruel e sangrenta de jovens dentro de uma universidade. Nenhum Deus incita a morte violenta de pais na frente de seus filhos por causa da sua fé. Estas são práticas de homens perversos que manipulam o sagrado para espalharem o terror e a desordem por onde passam. Fomentam uma visão distorcida dos textos sagrados para justificarem a maldade que saem de si mesmos em busca de ideais pessoais e perversos. Não ouso insinuar a serviço de quem estas pessoas estão, mas sei que estão afastadas da luminosidade do verdadeiro Deus, de um Ser Superior que de forma bela e variada se manifesta e conduz os seus filhos pelas diferentes religiões e culturas inspirando a paz, o amor e a fraternidade universal.

É dever nosso levantar a nossa voz com um basta. Nas escolas, universidades, nas Igrejas, nos meios de comunicação… Nossas palavras e ações podem criar novas consciências e gerar uma nova reflexão em favor da paz e da tolerância, tecendo sólidos valores do bem na contramão da cultura de violência e do fanatismo emergentes.

As grandes organizações mundiais e cúpulas políticas, absortas nos próprios interesses econômicos visam apenas o poder e a defesa das suas fronteiras. Não olham o mundo como uma grande família humana enriquecida com culturas, credos e identidades diferentes. Entre nós não pode ser assim, podemos construir um mundo novo a partir das nossas relações familiares e sociais. Com pequenas ações e pequenos comportamentos vamos nos conectando a outras pequenas ações e pequenos comportamentos, enredando as relações e avançando para além dos nossos horizontes. Com simples ações vamos tecendo novos comportamentos, um novo amanhã a partir de nós.

Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Diácono Girley de Oliveira Reis, MSC