Somente uma palavra… (Mt 8,5-11)

Ao tomar conhecimento de que Jesus está a caminho de sua casa, o centurião romano manifesta a mais profunda humildade. Para que seu servo seja curado – afirma ele – não é necessária a presença pessoal do Mestre. Basta uma palavra do Senhor, e ele será curado.

É chocante a argumentação do oficial romano: ele tem subalternos e suas ordens expressas em palavras são prontamente obedecidas. Ocorre que o centurião reconhece em Jesus uma autoridade superior à de sua própria patente militar. Ele que, para levar sua súplica até Jesus, já recorrera à mediação de anciãos dos judeus (cf. Lc 7,3), primeiro sinal de seu sentimento de indignidade – nada usual num oficial de um exército de ocupação! -, agora se espanta com a atitude do Mestre, que prontamente se dispôs a deslocar-se até a casa de um pagão, considerado “impuro” pelos judeus.

A atitude do soldado romano leva Jesus a reconhecer nele um autêntico “filho de Abraão” – expressão que só se aplicava àqueles que pertenciam ao povo da Aliança. Assim como bastara para Abraão uma palavra de Deus, ao fazer-lhe a promessa de uma descendência, para que o patriarca deixasse suas raízes e se aventurasse no desconhecido, “como se visse o invisível”, também para este obscuro centurião basta a palavra de Jesus – assim ele crê – para que aconteça a cura de seu servidor.

Como comenta Hébert Roux, “esse homem não duvida nem por um instante que exista mais realidade, mais eficácia, mais poder em uma única palavra de Jesus que em toda iniciativa humana. Ele adivinha que a ordem que Jesus pode dar é uma ordem criadora; por isso, sabe que se obtiver uma só palavra, terá também o seu cumprimento”.

Em espantoso contraste com a atitude do centurião romano – um estrangeiro, que os judeus chamavam depreciativamente de “cão” -, nós vemos hoje, dentro e fora da Igreja, grande número de pessoas que agem como se ignorassem o poder transformador da Palavra de Deus.

Em meus tempos de Pastoral Carcerária, quantas vezes ouvimos a sentida reflexão de um presidiário ao ouvir o Evangelho: – “Se eu tivesse escutado isto antes, hoje eu não estaria aqui…” Em muitos lugares, a Palavra de Deus é anunciada de forma burocrática, “profissional”, sem vibração e sem fé.

E a liturgia insiste: “Se disseres uma palavra, minha alma será salva!”

Orai sem cessar!

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.