Sofrer, ser rejeitado, ser morto… (Lc 9,18-22)

Simão Pedro acaba de identificar a Jesus como o “Cristo de Deus”, isto é, o Ungido, o Messias anunciado pelos profetas da Primeira Aliança e esperado por Israel há séculos, geração após geração. Jesus entende que este é o momento azado para preparar seus seguidores para o desfecho do drama que está desenhado para ele. Pela primeira vez – e haverá outras duas (cf. Lc 9,4; 18,32) – ele anuncia sua Paixão e morte.

Eis o comentário de Georges Haldas [1917-2010] a respeito desta cena:

“Por três vezes, Cristo anuncia a seus companheiros que ele se dirige a Jerusalém para ali ‘sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar’. Podemos perguntar-nos por que ele achou conveniente repetir por três vezes esta predição. Simplesmente por que sabia que seus companheiros, a despeito de sua fidelidade e de seu zelo, teriam todas as dificuldades do mundo para crer nisso, e em particular crer em sua ressurreição.

De fato, foi o que aconteceu. Para eles, a morte de Jesus foi apenas luto, lágrimas, angústia e até mesmo dúvida a respeito de tudo o que tinham vivenciado durante os três anos passados em sua companhia. E mesmo quando ele lhes aparecer, não estarão prontamente convencidos – exceto as mulheres! – de sua presença real. Entre outros motivos, porque a própria noção de ressurreição não lhes era familiar em sua crença judaica.

Marcos registra, em alguma parte, que tendo dito Cristo, um dia, que iria ressuscitar, ‘eles não sabiam o que isso podia significar’. Daí a insistência de Jesus em lhes anunciar a coisa. Natural, pois, que a reação de Pedro fosse de total rejeição e se posicionasse contra um desfecho que batia de frente contra os sonhos e as expectativas dos discípulos. Como também se compreende que todos – exceto João – batessem em retirada diante da prisão e condenação do Mestre.

George Haldas comenta: “Dito isto, nada nos mostra melhor, nesses fatos, a que ponto se deve desconfiar daquilo que acreditamos serem nossos bons sentimentos. Com frequência, eles são de uma humanidade a curto prazo. Em outras palavras – e aí está o ponto fraco – unicamente terrestres. Válidos apenas para o reino deste mundo e, por isso, em sua própria validade e seu lado simpático, amputados do outro Reino. Da relação com a Fonte”. Daí a observação do próprio Jesus a Pedro: “Teus pensamentos não são os de Deus, mas dos homens”. (Mt 16,23)

Vale a pena reexaminar nossas intenções no seguimento de Jesus Cristo…

Orai sem cessar: “Senhor, feliz o homem a quem educas!” (Sl 94,12)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.