12/02/2019 – Seu coração está longe de mim… (Mc 7,1-13)

A história das religiões demonstra da maneira mais clara como a relação com a divindade facilmente se desvia do essencial. A sede de Deus está no coração de toda pessoa humana. Como diz o Catecismo da Igreja Católica (nº 27), o homem é “capaz de Deus, o desejo de Deus está inscrito no coração do homem”. Mas os caminhos adotados para essa relação podem ser perigosos desvios da verdadeira religião.

Exemplo grosseiro de tal corrupção eram os sacrifícios de vítimas humanas aos antigos deuses pagãos. Chegando à América Central, os navegadores espanhóis contemplaram, horrorizados, as pirâmides escalonadas dos astecas com os degraus recobertos de crânios humanos, o que havia sobrado dos jovens oferecidos em ritual sangrento ao deus Xipe-Totec.

No tempo de Jesus, o Mestre denuncia uma “religião” que se esgotara em ritos exteriores (sacrifícios de animais, oferta de incenso, observância do sábado, busca de pureza ritual com a ablução de utensílios etc.), enquanto o íntimo dos corações permanecia apegado ao dinheiro, ao poder, e o cuidado dos pobres era deixado de lado.

Não se trata de desvalorizar as tradições recebidas dos antepassados, mas de manter vivo aquele espírito sem o qual os sinais exteriores não correspondem a uma vida interior, tornando-se gestos vazios de sentido ou arremedos de algum tipo de mágica.

Também nós, católicos, podemos cair em desvios semelhantes, acreditando que práticas externas – em si, boas -, como procissões, novenas, devoção aos santos, sejam a garantia de um autêntico espírito religioso, enquanto faltam aspectos essenciais como a frequência aos sacramentos (inclusive a confissão individual dos pecados), a adoração, o serviço ao próximo, o trabalho de evangelização e a busca do senhorio de Jesus em nossa vida, de modo que tudo gire em torno de sua pessoa, atentos à vontade de Deus para nós.

Daí a necessidade imperiosa de invocar permanente o Espírito Santo, de estar atento às suas moções interiores e, naturalmente, de cortar pela raiz todo tipo de apego que nos imobiliza e impede de agir segundo seus impulsos. Sem este Espírito, a prática religiosa é fria, estéril, mecânica, sem vida. Simples ritual.

 

Orai sem cessar: “Sacrifício para Deus é um espírito contrito!” (Sl 51,19)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.