Sede misericordiosos… (Lc 6,36-38)

Este Evangelho nos coloca de frente a um dos imperativos de Jesus Cristo: “Sede misericordiosos!” A palavra “misericórdia” – virtude essencialmente cristã – traduz o grego “oiktirmós” = piedade, compaixão), mas sua construção, em latim, reúne os conceitos de “pobreza” e “coração”. Ter misericórdia é ter “coração de pobre”.

Penso que isto aproxima a palavra do conceito de “humildade”. Aquele que se acha digno, merecedor de elogios, honesto e honrado, facilmente recai no erro de julgar os outros indiscriminadamente. Ao contrário, quem se examina e reconhece que já errou muitas vezes, que poderia ter sido um criminoso, que se viu no limite da resistência a um mau passo, certamente não se apressará em julgar e condenar aqueles que têm seus erros divulgados na mídia.

Já parece difícil, sim, mas o Mestre se mostra ainda mais exigente quando ele nos dá o modelo a imitar: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso”. Estaria ao nosso alcance? Talvez ajude o comentário do monge André Louf:

“Por ter encontrado, um dia, o Pai das misericórdias, o cristão entreviu alguma coisa da gratuidade, desse excesso de amor que nada mereceu, que nada saberia explicar, que nenhum reconhecimento poderia igualar, do qual nenhuma ação de graças, nenhuma eucaristia viria a ocorrer, ouso dizer, nos séculos dos séculos. E porque o cristão entreviu alguma coisa, porque ele mesmo é objeto dessa misericórdia, porque ele está constituído em misericórdia, ele ficou marcado em seu coração e em sua carne.”

Para o pagão, é praticamente impossível usar de misericórdia. Afinal, ninguém morreu por ele, ninguém deu o sangue por sua salvação, ele ignora os milagres da encarnação do Verbo e da Paixão do Filho de Deus. Assim, como não deve nada, também se sente no direito de cobrar dos outros. Mesmo que seja a pena de morte…

Já o cristão, lavado no sangue do Cordeiro, consciente de que deve tudo à graça e à misericórdia do Criador, ele sabe que jamais poderá saldar essa dívida de amor. O pouco que ele poder fazer consiste em não julgar os que erram, não condenar os que pecam e – ainda mais – interceder junto ao Juiz para que os criminosos encontrem misericórdia.

Sei que alguns leitores vão sentir-se incomodados. Ou mais que isso… Mas não posso dizer nada contra a lição de Jesus Cristo. O mesmo que, cravado na cruz, pedia ao Pai que não levasse em conta o crime de seus algozes: “Pai, eles não sabem o que fazem…”

Enfim, fica mais fácil usar de misericórdia com os outros se lembramos que, mais dia, menos dia – e talvez seja logo! -, estaremos de frente ao Juiz, em nosso Juízo particular, marcado para o momento de nossa despedida deste mundo. Futuros réus, por que julgar?

Orai sem cessar: “Ao Senhor pertence a misericórdia…” (Dn 9,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.