Quero que estejam comigo… (Jo 17,24-26)

No fecho de sua “oração sacerdotal”, logo antes da Paixão, Jesus se dirige ao Pai e manifesta uma “vontade” sua: “Quero que estejam comigo, lá onde eu estou, aqueles que me deste”. Nas palavras de André Scrima, “o Senhor chegou ao fim de sua oração e a eternidade se abre diante dele. O ‘presente’ eterno de Deus está diante de Jesus… e esse ‘presente’ eterno se abre a todos que creem nele: ‘aqueles que me deste’. Em outros termos, todos aqueles que irão entrar em unidade com ele, aqueles que Jesus possui e são inteiramente para ele”.

A semente divina que Jesus semeia com sua morte e ressurreição permanece viva, pronta a germinar, mesmo quando está coberta pelo entulho de nosso pecado. Assim, a esperança cristã na vida eterna – esperança que deve bastar para nos consolar da separação provisória de nossos entes queridos – faz uma aposta na brotação definitiva da semente, que é o próprio Jesus.

Quando Jesus reza pela unidade dos “seus”, é evidente que não se trata de uma unidade restrita ao tempo, à história dos homens. A “unidade” dos fiéis projeta-os além das barreiras temporais e torna-se, desde já, o signo da comunhão definitiva nesse “meio” vital que chamamos de “eternidade”. A vida que Jesus nos oferece seria mera ilusão, se ela se resumisse às barreiras do tempo.

Como observa o teólogo Louis Bouyer, “a unidade dos discípulos se operará por seu transporte para o seio da unidade do Pai e do Filho. Este transporte de amor se cumprirá porque o Pai está no Filho, e o Filho estará nos seus, associando-os à Glória divina que ele recebeu do Pai”.

É uma pena que os batizados não mantenham acesa em seu espírito a consciência do efeito maior de seu batismo: a imersão na vida divina, participando desde já, ainda que em processo, de um dinamismo que a morte não pode destruir. É desta certeza que decorre nossa fé na “comunhão dos santos”, pois a vida de Deus, em nós injetada, é a nossa garantia de eternidade.

Para o mundo pagão, tudo acaba com a morte. Depois da morte, o vazio do nada. Por isso mesmo, a vida lhes parece uma tragédia orquestrada por um Destino cruel. Para o cristão, ao contrário, a vida pode ser um drama, mas seu desfecho será sempre a vitória da luz sobre a treva, com a Glória divina envolvendo todos “os seus”. É o que Jesus declarava, ao dizer: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim!” (Jo 12,32)

Ao celebrar os fiéis defuntos, a Igreja dirige nosso olhar para um “universo novo, a Jerusalém celeste, onde Deus terá sua morada entre os homens, enxugando toda lágrima de seus olhos, pois não mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais”. (CIC 1044)

Orai sem cessar: “Senhor, tu me restituíste a vida!” (Sl 30,4)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.