Queridos irmãos MSC.

Saudações no Senhor e os melhores votos para todos ao celebrar a Solenidade do Sagrado Coração no próximo dia 23 de Junho!

Que seja ocasião para refletirmos sobre o fato de que somos Missionários do Sagrado Coração e que fomos enviados para ser esse Coração para os outros, “Amar como Jesus amava”.

Esta é a última carta que escrevemos a toda a Congregação como Administração Geral. A mensagem de Natal que receberão ao final deste ano, já será da nova Administração Geral eleita no Capítulo Geral de setembro. Aproveitamos esta oportunidade para nos despedirmos e, como iremos para lugares e desafios novos, pedirmos as suas orações.

Durante estes anos (doze para Wahyudi e eu, e seis para Carl e Chris) tivemos o privilégio de servir à Congregação como Geral e como Conselho Geral. O bispo Rafael Rodriguez esteve conosco durante os primeiros anos e ao escrever-lhes esta mensagem, fazemo-lo também presente. Muito lhes agradecemos por sua amabilidade e pelo apoio que recebemos de todos. Sua hospitalidade quando os visitávamos, seu carinho em tantas ocasiões e, seu apoio, foram muito importantes para nós. Agradecemos e estamos convictos de que foi um privilégio servi-los no desempenho desse ministério de coordenação. Pedimos também que nos perdoem tudo aquilo que, durante esses anos, não fizemos ou fizemos mal feito.

Os membros do Conselho me pediram que partilhasse com vocês algumas de minhas experiências e impressões, recordações e sensações. Não é fácil, já que a experiência foi em muitos sentidos impressionante. Nós cinco deveremos estar refletindo pelo resto de nossas vidas sobre o que terá significado tudo isso para nós e o quanto fomos transformados. Porém vou partilhar três experiências concretas, tendo sempre como referência um rio diferente.

Nas Filipinas, vivi um momento assustador ao ter de cruzar o rio Agusan, a pé, atravessando uma ponte algo precária. Eu ia com os padres Tito e Charles Patrício e várias outras pessoas. Para mim que tenho acrofobia (pavor de alturas), esta passagem foi um momento de medo e pânico. O rio rugindo vinte metros abaixo me levou a sentir-me indefeso e insignificante perante o grande conjunto da natureza. Foi uma experiência de humildade e impotência. Um sentimento não muito diferente tive no refeitório da comunidade de Alotau, na Pápua Nova Guiné. Vi minha fotografia pendurada na parede, mas ao mesmo tempo dava para ver, no quarto ao lado, a fotografia do padre Mike Curran em cima de uma caixa de papelão. Pensei imediatamente que algum dia a minha fotografia estaria também numa caixa de lixo! E agora esse dia aproxima-se rapidamente! Sensações como esta te fazem descer à realidade!

No Congo, durante dois dias e duas noites, viajei descendo pelo rio Tshuapa em uma canoa com os padres Bruno, Toussaint e Jacques desde a cidade de Bokungu até a de Mbandaka. Fiquei totalmente maravilhado com a magnificência do rio, com a floresta tropical sob o belo céu estrelado. Uma experiência da presença de Deus e do poder da natureza. Novamente me senti pequeno, mas desta vez sem nenhum medo. Foi uma experiência do “ubique terrarum”, uma lembrança da coragem e da audácia de nossos Missionários, tanto os do passado como os de agora. E senti orgulho de nossa Congregação; isso me fez ver que há que se ter coragem e correr riscos na missão de hoje.

No Brasil, fiz uma rápida viagem de lancha, subindo o rio Negro para visitar o local de uma missão entre os índios brasileiros em São Gabriel da Cachoeira, na região do Amazonas.

Viajava com os padres Cortez e Ivo e com os noviços Jackson e Junior. Esta foi uma experiência de convívio, de estar junto com os irmãos num barco pequeno, com as pessoas que encontramos na capela da missão e com o próprio rio com suas piranhas que imaginávamos espreitando-nos entre as águas! Fez-me recordar com emoção minha união com os irmãos de comunidade, com as pessoas a quem sirvo e com todas as maravilhas da natureza. Pra mim foi uma experiência do mistério da encarnação. Era nessa realidade das pessoas e da natureza que Jesus vivia conosco, onde partilhava nossa humanidade e ‘se entregou por mim’.  Onde estiver, sinto-me chamado a viver essa proximidade em comunidade, com os irmãos e com as pessoas com quem trabalho.

O ‘rio’ é um símbolo bíblico muito rico. O rio do templo novo do futuro se encontra no capítulo 47 de Ezequiel e no 22 do Apocalipse. E parte da mesma imagem é a água do lado aberto de Jesus no cap. 19 de João. Rios de água viva brotam do Coração daquele que crê (João 7; e à samaritana Jesus fala da água viva (João 4). No texto que escolhemos para o Capítulo Geral (cap. 2 de João) a água se converte em vinho e é o ‘vinho melhor’ que o noivo reserva até agora. O ‘vinho melhor’, assim como a’ água viva’, como também o ‘pão verdadeiro que desce do céu’, a ‘luz verdadeira’, o ‘bom pastor’ e a ‘ressurreição e a vida’ são, claro, o próprio Jesus. A água que corre para um rio, especialmente os grandes rios como os que mencionamos, nos traz à mente o amor fiel e a presença Daquele que veio para estar no meio de nós, a viver nossa vida e a partilhar a sua conosco. No ‘Lembrai-vos’ pedimos a Maria que nos conduza às fontes de água viva.

Ao longo desses anos muitas coisas me aconteceram (e aos outros cinco). Cresci? Terei passado pelo processo de conversão que prego aos outros? Asseguro que agora estou mais consciente da necessidade de conversão do que antes. E espero que este seja um passo em direção ao rumo certo! Creio, sobretudo, que tive muitos momentos em que senti o amor envolvente de Deus por mim. Ao tratar dos problemas, ao encontrar-me com os irmãos e vendo tudo o de bom e todo o amor que têm, em minhas viagens ao redor do mundo, na vida aqui na Casa Geral e em minhas orações e reflexões sobre a realidade… (eu via que) nossas Constituições ganhavam um novo sentido. Consciente do amor de Deus e da minha pequenez, consciente de que Deus ama esse ‘nada’, sinto-me motivado a dar em troca esse amor e a continuar esta missão nos anos que me restam.

Quero dar graças a Deus, a todos os membros desta Administração Geral e a todos vocês por tudo que recebi.

Por favor, continuem rezando pelo Capítulo Geral de setembro (será o nosso 25º Capítulo Geral) e pelo discernimento que estão convocados a fazer os membros do Capítulo.

Que Deus abençoe a todos!!

Mark McDonald, MSC

Pelo Conselho Geral.

 

 

 

 

 

 

 

 

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