Quem me tocou? (Mc 5,21-43)

Cercado pela multidão, mesmo imprensado pelas pessoas, Jesus de Nazaré percebe que uma “força” (dýnamin, no texto grego) saíra de seu corpo. É que ele fora tocado por uma mulher enferma, que padecia de hemorragias há 12 anos. Movida pela fé, ela se insinua no meio do povo e toca o manto do Mestre. Foi o suficiente para sua cura.

– “Quem me tocou?” – pergunta Jesus. Sua intenção é identificar a dona desse ato de fé. E lhe dirá, no final: – “Filha, tua fé te salvou!” Santo Efrém de Nisíbia, ao comentar este Evangelho, deixa claro que foi a fé quem tocou Jesus: “muitos o tinham tocado naquele momento, mas apenas como quem tocava um homem, enquanto uma única o havia tocado como quem toca um Deus”.

Isto me leva a pensar no sacramento da Eucaristia. Ao comungar, a quem tocamos nós? Só um pão bento? Apenas um símbolo, como na Ceia de outras denominações cristãs? Ou ainda cremos que o alimento eucarístico é mesmo Jesus Cristo, em seu corpo, sangue, alma e divindade?

E se é assim que cremos, como explicar tantas comunhões mecânicas, sem alma, gestos burocráticos sem esse “dinamismo” que saiu de Jesus? Como explicar que o doente comungue e não seja curado? Como entender que não brotem lágrimas de nossos olhos? S. Efrém iria responder: – É questão de fé!

Em seu livro “Toucher Dieu” (Pneumathèque, 1991), Francis Martin anota várias formas de “tocar a Deus”. Para ele, podemos fazê-lo na Sagrada Escritura, na oração, na solidão, na cura interior, no próprio corpo, nos irmãos. O autor lamenta que Jesus possa vir a ser, para nós, apenas um conceito filosófico, e não uma Pessoa real com quem fazemos contato direto. Ele diz:

“Como cristão, eu posso sentir a mim mesmo como um pedaço de aço no fogo da purificação. As tenazes que me sustentam têm dois braços: o insondável mistério de Cristo e o aspecto terrivelmente concreto de sua aproximação em minha direção. Eu posso ser tentado a escapar da pegada de um desses braços: ou reduzindo Cristo a uma descoberta filosófica humana, ou exaltando seu abaixamento como uma exibição de força.”

No entanto, Jesus é real, uma Pessoa concreta, sempre tentando chegar-se a mim. Mas não vem como uma demonstração de poder que me vacina contra as peripécias da condição humana. Para muitos santos, o “toque” de Jesus incluiu estigmas, dores e cruzes. Talvez isto explique mantê-lo à distância…

Orai sem cessar: “Deus fere, mas suas mãos curam…” (Jó 5,18)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.