Pôs-se a ensinar… (Mc 1,21b-28)

O Evangelho de hoje fotografa Jesus na sinagoga de Cafarnaum. Não deixa de ser estranho que um aprendiz de carpinteiro assuma a função de mestre da Palavra, uma espécie de doutor da lei. E fazia esse trabalho com uma autoridade que não se via no ensino dos escribas.

As sinagogas haviam surgido no tempo do exílio, quando, desterrados em Babilônia (597 a.C.), impedidos de celebrar o culto a Yahweh no distante Templo de Jerusalém, os judeus passaram a se reunir para rezar, conservar suas tradições, ler e estudar os livros da Torá e dos Profetas. Um mínimo de dez homens adultos era exigido para a abertura de uma sinagoga. Em muitos lugares, as sinagogas reuniam assembleias bastante fechadas, cujos membros eram da mesma profissão, moradores do mesmo bairro ou provenientes do mesmo lugar de origem.

Não deixa de ser curioso – e aí está o dedo de Deus! – que essa mesma rede de sinagogas, espalhadas por todo o Império Romano (mais de mil na Diáspora, no tempo de Jesus!), acabaria utilizada pelos primeiros pregadores cristãos para a disseminação do Evangelho.

No estrado central da sinagoga – a Bimah – Jesus lê e interpreta a Palavra de Deus. Manifesta-se, pois, sua missão magisterial. E é com o título de Rabi, Mestre, que muitos se dirigem a ele. Quem o ouve, admira-se. Até os soldados enviados para prendê-lo reconhecem sua autoridade: “Jamais homem algum falou como este homem!” (Jo 7,46.)

Os tempos passaram, mas Jesus permanece o único Mestre que nos dirige uma palavra infalível, que os tempos não poderão apagar e relegar ao esquecimento: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.” (Mt 24,35.) Cada tempo tem seus pensadores e filósofos da moda. Eles passam e ficam nas bibliotecas, cobertos de poeira secular. Os Evangelhos, onde pulsam vivas as palavras do Mestre, são traduzidos em número crescente de idiomas humanos. Quando a sombra ameaça a civilização, é neles que o homem sem rumo busca a luz para seus passos…

Hoje, em nossas celebrações, quando abrimos o Livro Sagrado, nossos ouvidos têm acesso a palavras autênticas do Filho de Deus, o Mestre de Nazaré. Enquanto a Bíblia estiver ao nosso alcance, teremos a certeza de não estamos sozinhos. Na Palavra inspirada, o próprio Deus caminha ao nosso lado…

Orai sem cessar: “Espero em tuas palavras, Senhor!” (Sl 119,147)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.