15/02/2019 – Pôs os dedos nos seus ouvidos… (Mc 7,31-37)

Quando algum fato supera os limites humanos, o povo vê ali o “dedo de Deus”. Foi assim no Antigo Testamento: quando caiu sobre o Egito a terceira praga (cf. Ex 8,15) e até a poeira do chão se transformou em mosquitos, os magos disseram ao Faraó: ‘Aqui está o dedo de Deus’. Igualmente, quando Moisés recebeu as tábuas da Lei no sinal, a Escritura registra: “Eram tábuas de pedra escritas com o dedo de Deus”. (Ex 31,18)

Em suma, na necessidade de mostrar ao leitor a ação de um Deus que é puro espírito, o escritor sagrado recorre a imagens antropomórficas: o braço de Deus, a mão de Deus, o dedo de Deus.

Agora, porém, em clima de Nova Aliança, o grande milagre da Encarnação nos coloca diante do Filho de Deus feito homem, que pode ser visto, ouvido e apalpado (cf. 1Jo 1,1). Quem se aproxima de Jesus pode dispensar as imagens e ir direto ao Senhor da vida. E foi assim que o surdo-mudo foi tocado e curado.

Mas o milagre de Jesus não se encerra em um caso de cura individual. Há muito mais em jogo. O “deficiente” deste Evangelho é um símbolo do povo de Israel que, por sua vez, resume toda a humanidade surda à voz de Deus. Eis o comentário de Hans Urs von Balthasar:

“Tal como disseram os profetas, Israel está surdo à palavra de Deus e, assim, incapaz de uma resposta válida. Jesus não realiza milagres como espetáculo, por isso leva o doente à parte, procura o delicado meio entre a discrição (diante da propaganda do mundo) e a ajuda a ser levada ao povo. Os dois toques corporais (ouvidos e língua) formam o prelúdio para seu olhar erguido ao Pai – todo milagre que ele faz é um ato do Pai por meio dele – e para seu suspiro, indicando que ele está cheio do Espírito Santo. Esta plenitude trinitária mostra suficientemente que na sua ordem – “Abre-te!” – ressoa uma palavra não simplesmente de cura corporal, mas de um efeito de graça para Israel e a humanidade.”

Parece que a TV vem mostrando um grave desvio de avaliação dos curadores de hoje: destaque para curas físicas e sucesso financeiro, enquanto as almas e os corações permanecem surdos à palavra do Evangelho, que fala de amor ao próximo, de vida simples e pobre, de fazer de Jesus o tesouro escondido, a pérola de valor inestimável.

 

Orai sem cessar: “Ouvirei o que diz o Senhor Deus…” (Sl 85,9)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.