Pegou os pães, deu graças, partiu-os… (Mc 8,1-10)

Desde seus primórdios, a Igreja se deliciou em ler a Escritura com olhos sacramentais. Os Padres da Igreja dedicaram-se a ler o Antigo Testamento com um filtro especial, que lhes permitia ver no Antigo os “tipos” do Novo. Foi assim que a Arca de Noé tipificou a Igreja; Isaac; o Filho sacrificado; o maná, o novo “pão do céu”, a Eucaristia.

Neste Evangelho, já em clima de Nova Aliança, Jesus se compadece da fome da multidão e faz uma sequência de gestos de valor sacerdotal: toma os pães em suas mãos, dá graças ao Pai, parte os pães e manda que sejam distribuídos à turba faminta. Impossível não ver aqui uma antecipação do futuro Sacramento, instituído na Última Ceia, quando Jesus ordenou: “Fazei isto em memória de mim!” (Lc 22,19)

Uma dessas leituras alegóricas foi feita por S. Efrém de Nisíbia [ca. 306-373]: “No deserto, nosso Senhor multiplicou o pão, e em Caná, mudou a água em vinho. Assim ele acostumou a boca dos discípulos a seu pão e seu vinho, até o dia em que ele lhes daria seu corpo e seu sangue. Ele os fez provar um pão e um vinho transitórios, para neles excitar o desejo de seu corpo e de seu sangue vivificantes.

Ele deu-lhes liberalmente estas coisas pequenas para que soubessem que seu dom supremo seria gratuito, ainda que de inestimável preço. Se eles podiam pagar o preço do pão e do vinho, não poderiam pagar por seu corpo e seu sangue.

Não somente ele nos cumulou gratuitamente de seus dons, ainda mais, ele nos mimou com afeto. É que ele nos deu estas coisas miúdas gratuitamente para nos atrair, a fim de que fôssemos e recebêssemos gratuitamente esta coisa tão grande que é a Ceia. Estas pequenas porções de pão e de vinho que ele nos deu eram doces para a boca, mas o dom de seu corpo e de seu sangue é útil ao espírito. Ele nos atraiu com coisas agradáveis ao paladar, a fim de nos levar até aquilo que vivifica as almas. Ele escondeu a doçura no vinho que ele fez, para indicar aos convivas que magnífico tesouro se oculta em seu sangue vivificante.

Num piscar de olhos, nosso Senhor multiplicou um pouco de pão. Da pequena quantidade de pão nasceu uma multidão de pães. Os pedaços deram fruto por sua bênção. Assim o Senhor demonstrou a seus discípulos o vigor penetrante de sua palavra, e a rapidez com a qual ele iria outorgar seus dons a todos aqueles que deles se beneficiam.

O milagre não foi medido pelo seu poder, mas pela fome dos famintos. De fato, se o milagre fosse medido por seu poder, seria impossível avaliar sua vitória. Medido pela fome de milhares de pessoas, o milagre foi além de sete cestos.”

Será por isto que, hoje em dia, a Eucaristia não tem feito milagres em nossa vida? Será por falta de fome?

Orai sem cessar: “E nos dias de fome eles serão saciados…” (Sl 37,19)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.