Paz para ti! (Sl 122 [121])

Este salmo tem como fecho um voto de paz. É um dos “cânticos das romarias” (ou salmos graduais) que os peregrinos a caminho de Jerusalém entoavam, de patamar em patamar, na festiva chegada ao Templo de Jerusalém. Situada no alto do Monte Sião, a cidade principal da Judeia tornava-se o foco das atenções dos caminheiros que vinham das terras baixas da Galileia. A cúpula dourada do Templo refletia os raios do sol nesse ponto do planeta já identificado como o local da máxima luminosidade solar.

Jerusalém. Yeroushalayim. A cidade cujo nome inclui um shalom, a paz. A cidade hoje fraturada entre ódios e terrores. Dura realidade que nos interroga sobre os caminhos da concórdia e da fraternidade, ideal que parece fugir sempre mais de nossos passos…

Será ainda possível a paz tão sonhada? Santo Agostinho aponta o caminho:

“Que é a paz de Jerusalém? Consiste em que as obras corporais de misericórdia correspondam às obras espirituais da pregação; far-se-á a paz, dando e recebendo. O Apóstolo afirmou que estas esmolas se acham sob a razão de dar e receber; disse: ‘Se semeamos em vosso favor os bens espirituais, será excessivo que colhamos os vossos bens materiais?’ (1Cor 9,11) Sobre o mesmo assunto, ele diz em outra passagem: ‘Quem recolherá muito, não teve excesso; quem recolherá pouco, não sofreu penúria’. (2Cor 8,15) Por que motivo ‘quem recolhera muito não teve excesso?’

Porque quem possuía mais, deu ao indigente. E que significa que ‘quem recolhera pouco não sofreu penúria?’ Porque recebeu daquele que tinha mais, e ‘assim haverá igualdade’ (2Cor 8,14). De tal paz é que foi dito: ‘Haja paz em tua fortaleza’”.

A lição óbvia é que a paz é impossível sem a justiça. A acumulação gera a guerra. A desigualdade gera o conflito. Não ama a paz quem não partilha. Em 1967, Paulo VI já alertava:

“As excessivas disparidades econômicas, sociais e culturais provocam, entre os povos, tensões e discórdias, e põem em perigo a paz. A condição das populações em fase de desenvolvimento deve ser objeto da nossa consideração, ou melhor, a nossa caridade para com todos os pobres do mundo, e eles são legiões infinitas, deve tornar-se mais atenta, mais ativa e mais generosa”. Combater a miséria e lutar contra a injustiça, é promover não só o bem-estar mas também o progresso humano e espiritual de todos e, portanto, o bem comum da humanidade. A paz não se reduz a uma ausência de guerra, fruto do equilíbrio sempre precário das forças. Constrói-se, dia a dia, na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens.” (Populorum Progressio, 76)

Orai sem cessar: “Felizes os que promovem a paz!” (Mt 5,9)

Texto e poema de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.