Para trás, satanás! (Mt 16,21-27)

Não. Não se trata de algum tipo de exorcismo… Foi esta a frase imperativa de Jesus dirigida a Simão Pedro, o mesmo apóstolo que o Senhor havia escolhido como “rocha” para o alicerce da Igreja. Qual o motivo de uma interpelação tão forte? O que levou o Mestre a associar Pedro e o tentador?

Vejamos a explicação do teólogo Hans Urs von Balthasar:

“Quando Jesus, no Evangelho, apresenta seu decisivo programa de missão, não é apenas o mundo que se escandaliza com a cruz, mas em primeiro lugar a Igreja. Ele se compõe de homens que gostariam, todos eles, e por todo o tempo possível, de escapar do sofrimento. Todas as religiões, exceto o cristianismo, correspondem a este programa: – ‘Como o homem pode escapar ao sofrimento?’ Seja por meio estoicismo, libertando-se da roda das reencarnações, mergulhando na meditação etc. Cristo, ao contrário, tornou-se homem para sofrer, e sofrer mais do que ninguém jamais sofreu.

Portanto, aquele que quer impedi-lo é um adversário [satã = adversário]. E este homem não o ouvirá dizer: ‘Fica feliz porque eu sofro por ti’, mas, ao contrário: ‘Toma tu mesmo a tua cruz, por amor a mim e em favor de teus irmãos, pela salvação dos quais é preciso sofrer. Não existe outra via de salvação a não ser eu mesmo. Tua salvação não consiste em te despojares de teu ‘eu’, mas em sacrificares sem cessar o teu ‘eu’ pelos outros, o que não acontece sem dor e sem cruz.”

O mal-entendido de Simão Pedro não é uma exclusividade do velho pescador. Ainda hoje, como naquele tempo, uma multidão de pessoas que se consideram cristãs continua a buscar em Jesus Cristo uma espécie de analgésico, um remédio contra a dor. Há templos com uma placa na fachada: “Pare de sofrer!” Como se fosse possível seguir o Crucificado sem a cruz do Calvário.

Sem falar naqueles “fiéis” que se afastaram da fé porque sua cruz não lhes foi retirada, fosse ela uma enfermidade, uma perseguição ou um cônjuge de convivência difícil. A decepção deles foi consequência de uma ilusão: queriam seguir um Deus vencedor, poderoso, dominador, em cujo reino eles teriam facilidades e privilégios, sentados em um trono de ouro, à direita do Rei.

Basta ler a vida dos santos – qualquer deles! – para perceber que seu itinerário de santificação se desenvolveu sob o peso da cruz. E mais: foi exatamente essa cruz abraçada dia após dia que permitiu, à sua volta, a irradiação do amor de Deus e a salvação das almas.

Orai sem cessar: “Que eu me glorie somente da cruz de N. S. Jesus Cristo!” (Gl 6,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.