Para a glória de Deus! (Jo 11,1-45)

Este longo Evangelho narra a “reanimação” de Lázaro. Não a “ressurreição” prometida aos mortos, no fim dos tempos, mas uma chamada de volta à vida, ainda que temporária, pois Lázaro, naturalmente, voltaria a morrer um dia.

O que deve chamar nossa atenção é que, logo de início, Jesus diz a seus seguidores que a doença de Lázaro (e a morte que se segue) é “para a glória de Deus”. Como será que a experiência do mal (enfermidade e morte) pode contribuir para a glória de Deus? Ora, quando Jesus, o Filho de Deus, recuperar para vida temporal um morto enterrado há 4 dias, todos perceberão que Deus é o Senhor da vida e da morte. Esta “descoberta” glorifica a Deus.

Mons. Claude Rault, Bispo do Saara argelino, comenta este Evangelho, afirmando que Jesus pede a Marta exatamente uma confiança além do impossível:

“Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (Jo 11,40) “Marta é chamada à coerência entre sua bela afirmação de fé em Jesus e a confiança que lhe é pedida no momento presente.

A pedra é removida. O morto está diante de Jesus, a alguns passos. E Jesus não o olha, é para o alto que eleva os olhos. Gesto que ele faz antes da partilha do pão, não como um pedido, mas como agradecimento antecipado. Ele diz ‘obrigado’ antes de ter recebido. Jesus reconhece a fonte da vida antes de transmiti-la. Dá graças antes de ser atendido, em uma oração que inclui um grande desafio. Trata-se da glória do Pai. Trata-se de sua própria credibilidade: ‘A fim de que creiam que Tu me enviaste!’ (Jo 11,42)

E sua voz ressoa, mais forte que a morte: ‘Lázaro, vem para fora!’ E Lázaro sai, enfaixado como um recém-nascido. Não se trata realmente de um novo nascimento? Ele é arrancado do seio da terra como um bebê expulso das entranhas de sua mãe. Lázaro é verdadeiramente carregado, pés e mãos atados, arrastado por essa palavra de autoridade que o arranca do túmulo. As forças da vida, mais fortes que a morte, o lançaram para fora.”

É uma pena que ouçamos os Evangelhos como piedosas narrativas de um passado remoto! É triste que não possamos ver no Evangelho a luz que ilumina nossa condição humana concreta, as situações do cotidiano. Contemplar a reanimação de Lázaro e não me colocar de imediato na mesma caverna, pronto a ouvir o mesmo imperativo: “Sai para fora!”

A glória de Deus manifestada quando Jesus põe a morte no cabresto e traz seu amigo de volta ao mundo dos vivos, é a mesma glória a ser manifestada quando a vida de Deus resplandecer em nós! Ou preferimos adormecer em nosso túmulo?

Orai sem cessar: “Senhor, tu tornarás a me dar a vida!” (Sl 71,20)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.