Pai… (Lc 11,1-4)

No dia em que a Liturgia nos recorda a oração ensinada por Jesus, o Filho, é preciso reavivar nosso chamado à filiação divina, chamando a Deus de “Pai”.

Ousados? Pode ser. Pelo menos, sempre o reconhecemos, a cada missa, quando a assembleia dos fiéis se prepara para rezar o Pai-Nosso: “instruídos pelos divinos ensinamentos, ousamos dizer”…

E pensar que, em todo o mundo, esses milhões de fiéis muçulmanos – piedosos e reverentes diante de Alá, o Único, o Verdadeiro, o Absoluto – jamais ousarão chamar a Deus de “Pai”… E pensar que, ao mesmo tempo, os filhotes dos cristãos assim o reconhecem desde os primeiros passos, ou ainda no colo da mãe que aponta e identifica: – “É o Papai do Céu”…

E é exatamente isso que nós somos: os filhos de um Pai que nos ama. Afinal, Deus é Amor (1Jo 4,8). E uma “prova” cabal e definitiva desse Amor que Ele é, foi nossa ADOÇÃO como filhos de Deus. “Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato.” (1Jo 3,1)

Não somos filhos por natureza. Somos filhos por adoção. Por natureza, ao contrário, éramos “filhos da ira divina” (Ef 2,3b). E sem merecimento – puro dom gracioso da misericórdia divina – fomos adotados como filhos num duplo movimento: 1) Jesus Cristo assume a nossa “carne” e se faz nosso irmão. 2) Recebemos em Pentecostes (e em nosso Batismo individual) o mesmo Espírito de Jesus, pelo qual nos reconhecemos filhos.

Não é o que escreve o apóstolo Paulo? “A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: ‘Abbá’, Pai!” (Gl 4,6)

E João, o evangelista das intimidades com Jesus, tem termos diferentes para distinguir a Jesus – o Filho único, o Unigênito, Filho de Deus por natureza divina – de nós outros, filhos adotivos. No seu grego, São João chama Jesus de “Hyiós”; a nós outros, chama de “tékna” (as crianças).

Mas isso em nada diminui o amor de Deus Pai por nós, seus filhos de adoção. Afinal, não entregou Deus o seu Filho “natural” à morte, para que tivéssemos a Vida, seus filhos “adotivos”?

A vida que vivemos dá testemunho de nossa filiação?

Orai sem cessar: “Tu és meu Pai, meu Deus!” (Sl 89,27)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança