Aos poucos o andar foi ficando lento e o corpo, antes desenvolto e ereto do atleta, foi se curvando. O olhar que buscava longe o horizonte foi perdendo seu ângulo e ficando mais e mais restrito. As velhas práticas de esporte foram ficando na lembrança e a velha caminhada foi ficando só nos desejos e nos sonhos. Mas, mesmo assim, o mal de Parkinson não lhe roubou a desenvoltura interior e o desejo de superação. Curvou o grande atleta por fora, mas, interiormente, continuava firme e lutando para não ceder jamais aos sintomas da doença.

Porém, a cada dia, a batalha foi ficando acirrada, o corpo foi se enfraquecendo, a deglutição diminuindo e a respiração dificultada. O homem que sempre procurou degustar os bons sabores e sempre dizia que “o que é gostoso e saboroso não faz mal”, agora, tinha que se alimentar via sonda. Já bastante fraco e praticamente sem muitas forças sente que é hora de partir. No dia 14 de fevereiro a luta se torna tão intensa, pediu a santa unção e devagarzinho ia se despedindo. Como uma vela que se apaga, no dia 15 de fevereiro, no alvorecer de um novo dia entregou serenamente seu espírito nas mãos do Pai. Foi sua passagem, sua páscoa na páscoa do Senhor Ressuscitado. Nasceu para a vida cuja dor, o pranto e o mal de Parkinson não podem alcançar. Apagou aqui, como uma chama que se apaga, mas sua vida, seu testemunho e suas pegadas não se apagaram de nosso meio.

Padre João, um homem lapidado pela vida, um sacerdote convicto de sua vocação e um religioso realmente missionário do Sagrado Coração. Alguém que  durante a vida, foi cortando com a foice da consciência as ilusões do mundo e seus próprios egoísmos. Agora, seu exemplo de vida faz brilhar, na lembrança dos que amou  e dos que o amaram. A claridade de seus exemplos brilha como estrelas e pode ajudar-nos a atravessar os períodos desfavoráveis, alimentando-nos de sua luz e de seu exemplo. Nele, sem dúvida, a luz trêmula da vela do batismo brilhou com toda a sua hesitação e beleza. Ele, embora muito discreto, não viveu apagado. Sua memória é um facho, um feixe de luz.

Como poderia se apagar de nossa memória afetiva o sacerdote que amava a Eucaristia e a tinha no centro de sua vida, cotidianamente. Como não se lembrar de sua coragem missionária e abertura para partir para outras terras. Segundo ele, a missão é imperativo, e não acessório, para quem professa numa Congregação cujo carisma nos impulsiona para o outro e para além-fronteiras. Nas terras fascinantes da Indonésia, por mais de uma década, deixou sua marca como missionário do Sagrado Coração ao lado de outros brasileiros. Interessante que em sua última semana de vida, por coincidência ou providência de Deus, esteve ao seu lado, também o padre Luis Bertazzi, seu velho amigo e companheiro de missão no arquipélago asiático. Ainda, apesar da sua voz rouca, puderam travar pequenos diálogos em malaio.

Também não poderíamos esquecer-nos de seu amor pelo esporte. Foi, segundo os testemunhos de seus contemporâneos, o melhor jogador de futebol que nossos seminários tiveram. Um atleta digno de qualquer clube de grande porte. Driblou no campo, driblou na vida, sabia dar seus olés e, como um bom estrategista, sabia fazer suas jogadas seja no gramado, seja no grande campo da convivência. Não gostava de conflitos, mas não era homem de abrir mão de suas opiniões e convicções. De certo a doença lhe causou um pênalti aos 89 anos, mas, respirou fundo e partiu com firmeza para a meta e podemos dizer que sua vida entregue a Deus foi um gol de placa.

Quem conviveu com ele, não pode esquecer também que em seus momentos de lazer e de descanso, gostava de um cafezinho com leite, fraco e bem quente, de uma viagem vez ou outra e, nas horas mais a sós, da leitura de bons livros espirituais que sempre tinha, cultivava um apreço muito grande por Santa Terezinha, Santa Rita e por São João Paulo II.

Mas, para não ficar só na hagiografia, gostava de um bom livro de cowboy. Fascinava-lhe a luta do século XIX entre os migrantes europeus e os nativos ameríndios do velho oeste americano. Quantas vezes, sentado em sua poltrona, sem poder mais andar devido à doença, ria quando se lembrava do velho “Touro sentado” (O velho cacique Sioux hunkpapa, dos amarelados livretos de bolso) na sua luta incansável pelos ameríndios.

Poderíamos ir longe nas lembranças, mas o que realmente fica em nosso coração é a gratidão de ter conhecido e convivido com ele. Padre João, descanse em paz e junto de Deus interceda por nós. Ajude-nos a driblar os adversários no campo da vida e que não percamos a elegância para vez ou outra dar um “olé” no “gramado da existência”. Padre João, seremos sempre gratos pela sua vida, seu testemunho e exemplo  como Missionário do Sagrado Coração e Sacerdote.  Descanse em paz!

Pe. Benedito Ângelo Cortez, msc