Ou estás com inveja? (Mt 20,1-16a)

Naturalmente, como não sou padre, não escuto os pecados no confessionário. Mas, se me permitem, imagino que atualmente seja raro um penitente se acusar do pecado da INVEJA. E ela não desapareceu da face da terra…

O pobre tem inveja do conforto do rico. O empresário tem inveja da despreocupação do operário. O honesto tem inveja do criminoso que teve a pena reduzida. O filho mais velho tem inveja do presente dado ao caçula. Coisas humanas…

Neste Evangelho, os operários da primeira hora – seis da manhã – ficaram irados e protestam diante da casa do patrão que pagara salário igual aos trabalhadores da undécima hora – cinco da tarde. Afinal, haviam enfrentado o rigor do sol, enquanto os “retardados” mal trabalharam uma hora na sombra. Os reclamantes pensam que agem na defesa de seus direitos, invocando uma espécie de isonomia salarial. No fundo, eles têm inveja. No texto original, o patrão pergunta se eles têm o “olho mau” [ophthalmós ponerós] porque ele, o Senhor, é bom…

De fato, eles não deixam de ter alguma razão, se for invocada apenas a justiça humana. Mas está claro que, nesta parábola, o “Patrão” é uma imagem de Deus, cuja justiça supera infinitamente a justiça dos humanos. O que muitos honestos não compreendem é que não temos direito algum diante de Deus. Nosso trabalho – nossas boas obras realizadas com muito suor, e nem sempre com muito amor – não nos dá o direito de apresentar faturas e duplicatas para Deus pagar…

Nosso “salário” não é proporcional ao nosso esforço (ainda bem!), mas é proporcional à misericórdia de Deus. Não é por sermos bons que somos salvos, mas porque o Salvador é bom para conosco.

Por isso mesmo, se os esforçados também fossem amorosos (e não, invejosos), teriam outro tipo de reação ao verem que os operários da undécima hora recebiam salário integral: – “Vejam só como nosso Patrão é bondoso! Pagou a eles o salário integral!”

Quando, por cinco anos, fiz parte de uma equipe de evangelização em um presídio de segurança máxima, ouvi várias críticas dentro da própria família. Se eram criminosos, se eram bandidos, não fazia sentido a nossa presença no meio deles. Como se Jesus Cristo tivesse vindo ao mundo em benefício dos justos, e não dos pecadores. Como se nós também fôssemos justos graças à nossa aparente honestidade…

Seria inveja porque Deus – que odeia o pecado – ainda ama o pecador?

Orai sem cessar: “São grandes, Senhor, as tuas misericórdias!” (Sl 119,156)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.