Onde compraremos pães para que eles comam? (Jo 6,1-15)

Ora, estamos em pleno deserto. A multidão presente é enorme. Os “recursos humanos” são escassos: cinco pães de cevada e dois peixes. Mesmo despojando o menino (cf. v. 9) de sua matula, a multidão passará fome. Claro, a pergunta de Jesus é mera provocação. Um dos economistas do grupo, Filipe, rapidamente calcula: “Nem duzentos denários de pão bastariam…”

O povo que cerca Jesus tem uma história. Seus antepassados já haviam cruzado o deserto por 40 anos (cf. Êxodo). Ali mesmo, passaram fome e foram saciados com um “pão” que eles não haviam plantado e colhido: o maná, o “pão do céu” que Deus forneceu (cf. Ex 16) até que chegassem à Terra Prometida e tivessem a primeira colheita (cf. Js 5,12).

É chegado o momento de receber um novo dom. O pão multiplicado por Jesus apenas aponta para esse dom inesperado, que o povo da Nova Aliança irá receber e partilhar em cada Eucaristia.

Por enquanto, porém, é preciso reconhecer a própria insuficiência, a própria incapacidade de sobreviver às custas de nossos próprios recursos, das técnicas desenvolvidas e mesmo do potencial da natureza criada. Enfim, nós somos dependentes. Esta consciência nos abre para os dons “do alto”.

Eis a reflexão de Christian Chessel, um dos quatro Padres Brancos de Tisi Ouzou, Argélia, assassinados por terroristas islâmicos em 1994: “Aceitar nossa impotência e nossa pobreza radical é um convite, um chamado premente a criar com os outros relações de não-poder. Ao reconhecer minha fraqueza, eu posso aceitar a dos outros e ver nisso um apelo a sustentá-la, a fazê-la minha, à imitação de Cristo. A fraqueza do apóstolo é como a de Cristo, enraizado na força da Páscoa e na força do Espírito. Ela não é passividade nem resignação, ela supõe muita coragem e impele a comprometer-se pela justiça e pela verdade, denunciando a ilusória sedução da força e do poder”.

Aí está: somos fracos e limitados. A multidão tem fome. Não temos pão. Sem uma abertura para o alto, isto é, sem contar com a intervenção de Deus, nosso Pai, jamais mataremos a fome de nossos irmãos. Jamais teremos a coragem de nos arriscar por eles, mas ficaremos paralisados na contemplação da miséria humana.

Jesus tomou o pão em suas mãos, “deu graças” e distribuiu à multidão, que comeu, ficou saciada e deixou sobras. Dar graças significa reconhecer que podemos ter pão do céu. Mas sempre será um risco comer o pão dos irmãos e deixar que passem fome…

Orai sem cessar: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (Jo 6,34)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.