O Vento sopra onde quer… (Jo 3,7b-15)

Desde os primórdios de sua história, os homens sempre sonharam com uma liberdade sem limites. Sonhos de autodeterminação. Ilusões de onipotência. Desde a Queda das origens (cf. Gn 3), a tentação de escolher, determinar seu próprio caminho, fabricar sua própria lei, seduziu as pobres criaturas. Ainda que esse impulso acabasse em usurpação e autolatria… Ser como deuses (cf. Gn 3,5)…

Quando mais “ilustrado” o homem, quanto mais ele se apoia em sua própria sabedoria, quanto mais ele valoriza seus estudos, tanto maior será o risco da soberba que se recusa a ser guiada por outra Vontade. É a sina dos rebeldes, dos revolucionários e… dos loucos.

Neste Evangelho, temos um diálogo apaixonante entre Jesus, o aprendiz de carpinteiro, e Nicodemos, um mestre em Israel (cf. Jo 3,10). Ele se aproxima de Jesus no meio da noite. Por medo dos amigos fariseus – pensam uns… Para não ser interrompido por ninguém – entendo eu. Nicodemos abre a conversa partindo dos “sinais” dados por Jesus, os milagres cuja fama se espalhara pelo país. Jesus retruca em outra direção: a necessidade de “nascer do alto”, ou seja, de experimentar uma renovação interior que só ocorre como graça de Deus.

Um sábio, como Nicodemos, pretenderá sempre acomodar a realidade a seus conceitos e princípios, o que lhe permite controlar a situação e determinar seu próprio caminho. Jesus aponta em outra direção: só Deus é livre. Seu Vento – o Espírito Santo [spiritus / pneuma / ruah] sopra onde quer. Ou seja, é Deus quem toma a iniciativa. Nós somos sempre um segundo momento, a oportunidade da escuta e da resposta. Da acolhida e da obediência. Da abertura à novidade que o Espírito nos oferece.

Mas isto é muito arriscado. Não ter um motor próprio. Não seguir meu próprio mapa. Aceitar um mergulho no espaço, dotado apenas de uma asa-delta, mas à mercê do Vento que – somente Ele! – poderá determinar meu rumo e direção. Aonde chegarei? Que surpresas esperam por mim? Posso me entregar ao desconhecido?

A resposta está na vida dos santos. Na missão extraordinária de um Paulo apóstolo. No serviço fraterno aos leprosos de um Damião de Veuster. Na dedicação aos pobres de Teresa de Calcutá. Quando um sacerdote alertava Madre Teresa sobre os riscos de “seus planos”, ela retrucou: “Não é meu plano… É o plano de Deus!”

Não há outra forma de seguir ao Senhor: abandonar-se ao Vento…

Orai sem cessar: “Senhor, faz-me caminhar na tua verdade!” (Sl 25,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.