14/04/2015

O Vento sopra onde quer… (Jo 3,7b-15)

No meio da noite (por medo? ou em busca de intimidade?), Nicodemos procura por Jesus. Membro do Sinédrio judaico, provável doutor da Lei, Nicodemos já percebeu que Deus age por meio das palavras e dos gestos do Filho do Carpinteiro (cf. Jo 3,2), mas ele ainda tem algumas defesas interiores. Racional e intelectual, Nicodemos tenta “compreender” Jesus e seus feitos.

Uma simples frase do Rabi da Galileia mostra que não se pode prender, compreender, engaiolar a ação de Deus em nossa vida: “O Vento (em grego, pneuma designa ao mesmo tempo o Vento e o Espírito) sopra onde quer”. Deus é absolutamente livre em seus projetos, iniciativas e atuações. Mas é de forma suave, mansa, como um sopro, que Deus pretende agir na vida de todos nós, pois é o primeiro a respeitar a liberdade que ele mesmo nos concedeu. Esta lição não é absolutamente nova, pois o profeta Elias já a recebera na caverna do Monte Horeb (cf. 1Rs 19,11-12).

Usando a imagem do Vento, Jesus se refere a alguma coisa do mundo material (que a razão pode compreender), mas exatamente, para a época, a mais impalpável e menos concreta das coisas materiais: o ar em movimento. Assim como o navegante não “vê” o vento, mas percebe sua ação nas velas e nos movimentos do barco, assim também podemos perceber a ação do Espírito de Deus pelos seus frutos em nossa vida.

Em nossos dias, talvez Jesus utilizasse uma outra imagem: a asa-delta que o desportista “veste” e com ela se lança do rochedo, deixando-se sustentar e guiar pelas correntes de ar quente, ascendentes, até onde… o vento quiser… Uma imagem que reúne dois aspectos fundamentais da vida espiritual: o dinamismo do Espírito Santo em nós, mas também a liberdade humana que decide cooperar com a Graça.

Aprendemos com o “Catecismo da Igreja Católica”: “A graça de Cristo não entra em concorrência com nossa liberdade quando esta corresponde ao sentido da verdade e do bem que Deus colocou no coração do homem. Ao contrário, como a experiência cristã o atesta, sobretudo na oração, quanto mais dóceis formos aos impulsos da graça, tanto mais crescem nossa liberdade íntima e nossa segurança nas provações e coações do mundo externo. Pela obra da graça, o Espírito Santo nos educa à liberdade espiritual, para fazer de nós livres colaboradores de sua obra na Igreja e no mundo”. (1742)

Examinemos nossa vida pessoal. Estamos disponíveis para Deus? Atentos a suas inspirações? Queremos ser guiados pelo Espírito Santo? Ou caímos na ilusão de submeter Deus aos nossos caprichos?

Orai sem cessar: “A nós descei, divina Luz!”

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança