O servo não é maior que seu senhor… (Jo 13,16-20)

Na Última Ceia, em clima de despedida, Jesus acaba de lavar os pés de seus discípulos. Ele é Senhor, mas faz papel de escravo. Como se não bastasse, acrescenta: “Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós”. (Jo 13,15) Jesus completa com a frase que passa a ser um princípio para a Igreja: “O servo não é maior que o seu senhor”. E anuncia uma nova bem-aventurança, a ser anexada àquelas do Sermão da Montanha: “Sereis felizes se o puserdes em prática”.

Duas palavras servem de eixo para a lição: servo e senhor. Bem entendido, os “servos” eram escravos, não funcionários subalternos. Os “servidores” têm carteira assinada, salário combinado e horário de trabalho definido. Já o escravo não tem nada: apenas vive à disposição de seu “dono” (palavra portuguesa derivada de “Dominus”, o senhor).

Claro que o Mestre não estava propondo concretamente que uns lavassem os pés dos outros, mas uma vida de serviço amoroso, em clima de mútua humilde. É como se Jesus dissesse – comenta André Scrima, monge ortodoxo: “Minha presença no meio de vós é revelada e sustentada pelo sinal desse amor humilde e recíproco, que fundamenta uma hierarquia diferente, ou seja, outra escala de posições entre os homens, diferente daquela que é habitual entre os filhos deste século. Assim, isto me tornará presente no meio de vós: que haja entre vós um amor direto, simples, espontâneo, sem discussão, disputa ou competição pela primazia”.

Claro que é um desafio para todos nós. Nossa natureza tende para o polo oposto: ter razão, impor nossa visão, escolher o caminho, valer-se do outro para o destaque pessoal. Por isso mesmo, Scrima vai adiante: “Para nós, o serviço é uma provação para nossa força, nosso autodomínio e nossa boa fé. O próprio Senhor está entre nós como aquele que serve. Por isso, convém que sirvamos a seu exemplo, com facilidade e graça. Ele mesmo nos revelou a profundidade do mistério de Deus no dom de si. O mistério de Deus é que Ele é tudo e doa tudo”.

Foi a reflexão de São Paulo: “Ele que era de condição divina, não se apegou a ser igual a Deus, mas despojou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo”. (Fl 2,5) É a este Senhor humilhado que devemos imitar. Há muitos “fiéis” procurando servir a um Vencedor, junto a seu Trono, cobrando seus Impostos. Pura fraude! Quem quiser seguir a Jesus, não o fará sem a cruz e a humilhação.

E, conforme diz Jesus, é uma receita de… felicidade…

Orai sem cessar: “Senhor, sou teu servo!” (Sl 116,16)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.