O Senhor do sábado… (Mt 12,1-8)

De um lado, o legalismo estéril, que levaria alguém a trocar um gesto de caridade pela urgente necessidade de cumprir algum preceito; do lado oposto, o amor, que supera as barreiras da lei e os muros da indiferença. Mais de uma vez, nos Evangelhos, Jesus recebeu críticas e acusações por não se recusar a fazer o bem no dia que a Lei judaica consagrava ao descanso.

Certa vez, com alguma ironia, Jesus observou que seus acusadores não deixariam de tirar do fosso o burro que ali caísse, mesmo em dia de sábado, enquanto eles o acusavam de curar os enfermos no mesmo dia sagrado. Será que, para os legalistas, valemos menos que os animais irracionais?

Faz pensar em cenas de nossos dias, quando a mãe pobre é encarcerada por “pegar” um pão para o filho faminto…

Lev Gillet, da Igreja Ortodoxa, comenta esta passagem:

“Jesus atravessa um campo de trigo em dia de sábado. Seus discípulos, que têm fome, colhem espigas e comem os grãos. Os fariseus protestam: ‘Eis que teus discípulos fazem o que não é permitido fazer durante o sabbat’. Mas Jesus declara: ‘O Filho do homem é senhor do sábado’.

Senhor, tu não disseste: ‘O Filho de Deus é senhor do sábado’. Tu escolheste a expressão ‘Filho do homem’, que evocava alguma coisa de misterioso e de sagrado, mas aquela que mais se aproxima de nossa humanidade.

Pois também declaraste: ‘O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado’ (Mc 2,27). Todo homem, em certo sentido, é senhor do sábado. Todo homem pode, eventualmente, violar a letra de uma lei, sob a condição de que isto seja para ficar mais fiel ao espírito dessa lei. E isto jamais deve ser uma escolha fácil ou mais adequada aos nossos desejos, mas a passagem para uma observância mais profunda.

Senhor, quanto te proclamas senhor do sábado – tu que o foste no grau extremo -, não queres apenas dizer que tornas permitidas certas infrações à lei. Tu declaras também o inverso. Tu és aquele que pode permitir a infração do repouso sabático, mas também és aquele que santifica todos os dias úteis e tornas sagrado a cada um deles. A distinção entre o 7º dia e os outros seis dias muitas vezes fica mais ou menos apagada na alma que se consagrou a ti por inteiro. Cada um de nós pode tornar-se um sábado – o sábado em espírito e verdade.”

Orai sem cessar: “Senhor, os meus dias estão nas tuas mãos!” (Sl 31,15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.