O imposto do Templo… (Mt 17,22-27)

Curiosa passagem do Evangelho que os outros dois sinóticos – Marcos e Lucas – não registram, talvez por não lhe darem maior importância. São Mateus, porém, um publicano, ex-cobrador de impostos, achou por bem incluí-la.

De fato, desde Moisés, os israelitas eram instados a pagar um imposto – a taxa do incenso – no pequeno valor de cinco gramas de prata, ou meio siclo. A importância devia ser aplicada na manutenção dos serviços do Templo, mas tinham acima de tudo um valor simbólico, como se lê no Livro do Êxodo (30,16b): “Servirá para os israelitas para serem lembrados diante do Senhor e como resgate de vossas vidas”.

Quando Jesus dialoga com Pedro e lhe pergunta quem deveria pagar impostos, os cidadãos ou os “outros”, a palavra grega do original – allótrios – não designa propriamente os “estrangeiros” (aliás, pagar os dízimos e os impostos eram um “direito” do israelita, proibido ao escravo e ao estrangeiro), mas tem o sentido de “outro”, “diferente”. Já no Império Romano, os patrícios não pagavam impostos, mas apenas as outras nações dominadas por Roma.

De qualquer modo, essas taxas judaicas estavam incluídas no lado formal do culto prestado a Deus. Enquanto Filho de Deus, o próprio Jesus estava, pois, dispensado de pagá-las. Mas não quis eximir-se delas e, mesmo na soberana liberdade de um Filho, prefere submeter-se aos deveres do comum dos mortais.

No entanto, a forma como Jesus “produz” os fundos necessários para pagar o imposto supera decididamente os limites humanos. Manda que Pedro vá pescar um peixe no Lago de Genesaré e, sob a língua do peixe, iria encontrar a moeda – um estáter, no valor de duas didracmas.

Hébert Roux comenta: “Ao pagar esse imposto, Jesus afirma sua submissão à Lei. Aliás, ele que se apresenta como o Senhor do sábado, como “maior que o Templo”, nem por isso deixa de ter ‘nascido sob a Lei’ (cf. Gl 4,5). Ademais, sua submissão é voluntária. Sua conversa com Pedro deixa entender claramente que ele, o Filho de Deus, e eles, os filhos do Reino, poderiam considerar-se dispensados em relação à Lei. Jesus poderia invocar sua filiação divina para se dispensar de um costume tornado caduco por sua própria Vinda.

Entretanto, ‘para não escandalizar’ os israelitas, aqueles filhos que estão prontos a desprezar a herança de seu Pai, ao rejeitarem a graça, Jesus ordena a Pedro que pague o imposto. Só que, através de um milagre, mais uma vez Jesus se revela como o Senhor a quem pertencem todas as coisas, e a quem elas estão submissas.”

É pena que, para nós, católicos, o dízimo seja apresentado como um “dever”, deixando de lado o fato de que o dízimo é um “direito” exclusivo dos membros do Corpo de Cristo…

Orai sem cessar: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor!” (Sl 50,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.