O Esposo lhes será tirado… (Mc 2,18-22)

Na Primeira Aliança, Israel, povo de Deus, é apresentado sob a figura da esposa. O Senhor Javé é o esposo fiel e sempre pronto a perdoar as infidelidades de seu povo. Esta é uma imagem forte, que acena para um profundo anseio de intimidade entre o Deus transcendente, inacessível, e a humanidade condensada em Israel. Nele, todos os povos participarão das núpcias definitivas.

No livro de Oséias, essa relação é agudizada: a esposa é uma ex-prostituta que, depois conquistada pelo profeta, volta à prostituição. Imagem do povo amado por Deus. “Ama de novo à mulher que foi amada de meu amigo, e que assim adultera, pois é assim que o Senhor ama os filhos de Israel!” (Os 3,1)

No incomparável “Cântico dos Cânticos”, o livro sagrado mostra o diálogo entre o Amado e a Amada. Todos os sentidos humanos são ali explorados – o rubro das maçãs e a alvura do lírio, o aroma do incenso e da canela, o sabor das uvas e das tâmaras, a vertigem das sandálias na dança – tudo para ilustrar “a paixão violenta como o Xeol”, isto é, o amor indizível do Esposo para com seu povo.

Na plenitude dos tempos, nascido de Mulher e humanado, vem o próprio Filho de Deus para nos ensinar a amar o amor definitivo, selando em sangue a Nova e Eterna Aliança. Às margens do Rio Jordão, João Batista corre a nos alertar: É Ele o esposo! Não podemos deixar que se afaste na escuridão da noite!

E querem esses loucos fariseus que nós façamos jejum?! Ora, é tempo de festa! É hora de esticar as cordas de nossa tenda! (Is 54,2) A vinha em flor exala o seu perfume (Ct 2,13). As talhas de vinho estão transbordando em Caná! (Jo 2) A colheita foi farta e os celeiros estão estufados de trigo! Um Deus se esconde em nossa casa! (Is 45,15)

* * *

Pois a Primavera passou. Os tamborins se calaram. A alcova foi devassada. O Noivo preso e condenado. Cravado na Cruz. Podem ouvir o seu lamento? Quem irá chorar por Ele? Quem levará aromas para seu sepulcro? Quem cobrirá de rosas o seu túmulo?

Até que Ele volte à vida, jejuaremos na noite, enquanto as lágrimas tornam férteis nossos campos e nossa terra… Porque nenhum consolo encontra a Filha de Sião…

Orai sem cessar: “Senhor, fazei-nos reviver os dias de outrora!” (Lm 5,21)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.