O dízimo da hortelã… (Mt 23,23-26)

Não, a Lei mosaica detalhada pelos rabinos judeus não mandava pagar esse tipo de dízimo. Esta lembrança é quase uma ironia de Jesus ao fazer distinção entre as coisas fundamentais da relação com Deus e as minúcias insignificantes que podem se infiltrar nessa mesma relação.

Eis o comentário da Bíblia de Navarra: “A hortelã, o endro (ou anis) e o cominho são ervas que os judeus cultivavam e empregavam para aromatizar as casas ou para condimentar a comida. Sendo produtos insignificantes, não entravam no preceito mosaico do pagamento dos dízimos (Lv 27,30-33; Dt 14,22ss); este dizia respeito aos animais domésticos e a alguns produtos mais correntes do campo: trigo, vinho, azeite etc. Não obstante, os fariseus, para ostentar o seu respeito escrupuloso pela Lei, pagavam os dízimos inclusive daquelas ervas. Era uma falsa manifestação de generosidade e de acatamento da Lei. O Senhor não a despreza nem a rejeita, apenas restabelece a ordem das coisas. É inútil cuidar os pormenores secundários, se não se cuidam as coisas fundamentais e verdadeiramente importantes: a justiça, a misericórdia e a fidelidade”.

Aí está: restabelecer a ordem das coisas. Em outros termos, uma hierarquia de valores na prática religiosa. A celebração eucarística vale mais que o grupo de oração. Pena que os fiéis só chegaram para o grupo… A confissão auricular vale mais que a procissão. Pena que o confessionário continua vazio… A formação catequética vale mais que o bingo paroquial. Pena que só este último atrai multidões…

Filtramos o mosquito. Engolimos o camelo. Certamente, não é isto que o Senhor espera da comunidade cristã. Há coisas importantes que – há bom tempo – estão sendo relegadas a segundo plano em nossa vida religiosa. Os casais que vão à missa também rezam em casa? Os fiéis que aplaudem o Lecionário no templo ainda encontram tempo, em casa, para a leitura pessoal da Bíblia? As viagens aos santuários da Europa substituem a visita aos doentes da comunidade?

Em boa parte, os grupos que se apresentam como “renovados no Espírito” têm merecido reprovação dos párocos exatamente pela incapacidade de estabelecer uma adequada hierarquia quanto às práticas religiosas. O aparente entusiasmo com as coisas de Deus não se traduz no humilde compromisso com as necessidades imediatas da Igreja.

Ora, o futuro da Igreja (ainda mais com a falta de ministros ordenados e as restrições e perseguições que se anunciam…) está em pequenas comunidades reunidas em torno da Palavra de Deus, firmes na oração comum, comprometidas com a ajuda mútua, autênticos pulmões para a respiração da Igreja. E isto não é hortelã. É trigo integral…

Orai sem cessar: “Meu coração está pronto, ó Deus!” (Sl 57,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.