O Deus de Abraão… (Mc 12,18-27)

A intenção de quem interpelou a Jesus era apenas enredá-lo em uma armadilha, como de hábito fazem os advogados chicaneiros. Uma mulher – autêntico barba-azul de saias! – que se casa seguidamente com sete irmãos, de qual deles seria esposa quando todos eles ressuscitassem?

O aparente absurdo – na verdade, um beco sem saída – é apresentado a Jesus pelos saduceus como argumento contra a ressurreição dos mortos, hoje um artigo de fé do Credo cristão.
Ora, em sua resposta, o Mestre de Nazaré vai muito além de toda expectativa e se vale do ensejo para nos apresentar uma visão inesperada a respeito de nossa relação com Deus além do limiar da morte.

Jesus recorre ao Livro do Êxodo (3,6), isto é, à própria tradição mosaica que os saduceus diziam seguir, e cita a passagem em que Deus mesmo se define e se apresenta: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Desta breve frase se conclui que as gerações passam pelo tempo, mas não passam para Deus. Conclui-se que, para Deus, aqueles que “passaram” pelo tempo permanecem vivos, sem que a morte temporal seja para eles um sono definitivo.

Cai por terra a argumentação dos saduceus, que negavam a ressurreição dos mortos, diante da evidência de que todos nós continuamos vivos, não só para Deus, mas vivos EM Deus, vivos COM Deus, vivos POR Deus.

Em seu Sermão para o Sábado Santo, S. Agostinho de Hipona comentava: “Quando Deus diz: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’, ele acrescenta: ‘Este é o meu nome para a eternidade’ (Ex 3,15). É como se ele dissesse: ‘Por que tu temes a morte do homem? Por que temerias não ser mais depois da morte? Eis o meu nome para a eternidade’. E este nome: Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó não poderia ser eterno se Abraão, Isaac e Jacó não vivessem eternamente”.

Vale recordar ainda outra passagem da Escritura, quando Deus fala pelo profeta (cf. Jr 31,3): “Eu te amo com amor de eternidade, por isso guardo por ti tanta ternura!” Para que o amor seja “de eternidade”, não basta que o Amante seja eterno, mas também o amado deve subsistir além dos tempos e da história. Na verdade, é exatamente este o motivo de nossa eternidade: é o amor eterno de Deus que nos eterniza além da morte…

Orai sem cessar: “Os meus tempos estão em tuas mãos…” (Sl 31,15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.