22/06/2015

O cisco e a trave… (Mt 7,1-5)

Fedro, o fabulista latino, conta que Júpiter pendurou em nossas costas uma mochila com nossos vícios e defeitos. Em nosso peito, pôs outra mochila com os pecados dos outros. É por isso que temos tanta facilidade em criticar as falhas alheias e somos tão complacentes com nossos pecados, que permanecem fora de nossa visão.

Neste Evangelho, Jesus usa duas imagens em contraste: o cisco, pequena palha de vegetal, e a trave, pesada viga de madeira. A ironia do Mestre denuncia nossa incapacidade de agir como juízes do próximo e apontar para o cisco em seus olhos, pois nosso próprio olhar está prejudicado pela trave que fingimos não ver.

Os magistrados mais sérios conhecem bem a dificuldade em julgar um réu quando lhe são apresentados os agravantes e atenuantes de qualquer infração à lei. Por seu lado, os advogados trabalham em um terreno oscilante, onde muitos truques podem ser utilizados para incriminar um inocente ou salvaguardar um criminoso. Não raro, após a sentença, o próprio juiz aconselha uma das partes a entrar com recurso, pois entende, pessoalmente, que não se fez a justiça adequada.

São também conhecidos os casos em que, após longos anos de prisão, um condenado é libertado graças ao aparecimento do verdadeiro criminoso. É este, aliás, um poderoso argumento contra a pena de morte.

Por tudo isso, conhecendo como ninguém o coração humano, Jesus decreta: “Não julgueis!” E dá-nos um valioso princípio ético: “A medida que usardes para os outros servirá para vós”.

Na verdade, este princípio já está expresso na Oração do Senhor: “Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos que nos devem”. (Mt 6,12) Parece que, muitas vezes, não nos conduzimos de acordo com a oração que tanto repetimos…

Se levamos a sério as palavras do Pai-Nosso, certamente não fazemos campanha pela pena de morte nem estendemos o dedo indicador na direção dos pecadores públicos. Ao contrário, trocaremos a justiça gravada na pedra pela misericórdia pulsante na carne. É bem provável que também nós, em nosso julgamento, venhamos a precisar da misericórdia divina…

Como ensina São João Clímaco [Séc. VII], “os censores apressados e severos de seu próximo sucumbem a esta paixão porque eles não guardam perfeitamente a lembrança e o cuidado constante de seus próprios pecados. De fato, se alguém, desembaraçado do véu de complacência para consigo mesmo, visse exatamente seus próprios males, já não poderia cuidar de outra coisa por toda a sua vida. E avaliaria que todo o tempo que lhe resta não seria suficiente para afligir-se consigo mesmo”.

Orai sem cessar: “Senhor, meu pecado está sempre diante de mim!” (Sl 51,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.