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Pe. Reuberson Ferreira Rodrigues, mSC
Pe. Reuberson Ferreira, mSCOrdenou-se em 13 de março de 2010. Trabalha atualmente em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Nova Vida: Hoje é o grande dia! Dia de Alegria!

24 de agosto de 2011 / Publicado em Artigos

Mal encostamos a voadeira à beira de um barranco e logo desponta um enorme grupo de indígenas, crianças, homens e mulheres em fila indiana, a nos saudar. Chegamos, pois, a uma comunidade chamada Nova Vida, distante cerca de três milhas náuticas de Juruti. Constituída, em grande parte, por pessoas da etnia Arapaço, Baré e Tukano. Logo à beira do Rio está à capela, imponente, mas bastante deteriorada. O padroeiro é São Sebastião. Entre a alegria da chegada e as constatações inicias, uma informação é-nos dita pelo Catequista: “Temos primeira comunhão, pai”. Esta frase marcará nossa estada!

Sob a sombra de uma frondosa árvore nativa chamada Jutaí improvisam-se dois tamboretes que servirão de confessionário. O sol escaldante do dia anterior, cede espaço a uma brisa suave. Com ela, um enxame de piuns, inseto com uma ferroada extremamente dolorosa, só faltam nos devorar. Pouco a pouco se aproximam alguns jovens, meninos e meninas, que, por vezes, trêmulos vem ao sacramento da reconciliação para poder receber pela primeira vez a Eucaristia. Alguns pedem para confessar na língua materna que varia entre Tukano e Nheengatú. Ouço e recito a absolvição, pois é Deus mesmo quem perdoa.

A alegria da comunidade é incontida. Pais, radiantes. Mães, sorridentes. Jovens, felizes e ansiosos. Hoje é o grande dia! em Nheengatú, língua predominante nesta região, “Ara Surisawa” – dia de Alegria. Os “parentes” irão receber a Eucaristia pela primeira vez. Improvisa-se um violão, ensaiam-se os cantos e começamos a celebração. O olhar atento e curioso recai sobre cada gesto litúrgico. Um silêncio beneditino absorve o ambiente. O grande momento: os jovens recebem a Eucaristia. Quanta alegria, quanta serenidade. Com as Mãos posta e olhos cerrados aquelas crianças mergulham no profundo mistério da Eucaristia, rezam a Deus. Talvez não dêem conta de sorver toda intensidade do momento, mas acreditam com uma piedade invejável.

Após a celebração todos nos reunimos à Casa comum. Como de praxe, as mulheres vêm por sob a cabeça, com os pratos típicos. Rezamos e nos banqueteamos com a quinhapira e o bejú. Segue-se, entre muitos sorrisos, uma proposta para o decorrer do dia. Decidimos fazer uma improvisada gincana com as crianças e à noite recitarmos o terço com as famílias. A tarde transcorreu numa velocidade incrível. Acompanhamos absorto o belíssimo pôr do sol que refletido no Rio Negro produzia uma das mais belas cenas e à noite nos reunimos para recitar o santo rosário.

Um pouco antes da recitação do terço ocorreu m fato extraordinário. Por algum motivo retornei a “casa” onde estava alojado. De repente ao passar em frente a uma das casas mais modestas da comunidade, uma criança de não mais que quatro anos toma-me pela mão. Sem dizer uma palavra em português, leva-me até a cozinha de sua casa. Sob o fogão de barro havia um prato coberto com uma tampa. O pequenino Baré, que me tomou pela mão, descobriu-o. Nele havia um pedaçinho de Bejú e um resto de quinhapira. Olhando fixamente para mim, partiu o bejú e como quem dá graças deu-me para comer. Não me contive, fiquei emocionado. Que cena essencialmente Evangélica! Aquele pão que eu outrora partia na Eucaristia e dava às crianças, foi me devolvido por aquele amável e pequenino indígena.

Após esse fato, recitamos o terço, partilhamos a vida e tomamos xibé. “Na maloca sem paredes e em minha rede, deitei bendizendo a Deus pela alegria de poder re-significar a anaminese Eucarística, sobretudo no ponto onde diz:” Tomou o pão, deu graças, e o partiu…”

Fonte: Revista de Nossa Senhora

Por Pe. Reuberson Ferreira Rodrigues, mSC