Nós que deixamos tudo… (Mc 10,28-31)

Não se pode deixar de admirar a habilidade de um bom comerciante. A capacidade de pechinchar mostrada por Abraão (cf. Gn 18,23ss). Ou a esperteza de Jacó (cf. Gn 30,37ss). Mas a sabedoria de Pedro vai muito além: ele e seus companheiros deixaram tudo e, em troca, obtiveram… o próprio Jesus!

Uma rápida olhadela na História da Igreja nos mostrará uma incontável multidão de homens e mulheres que puseram em um prato de balança os bens materiais, as glórias do mundo, os louros militares, os títulos de nobreza, os prazeres da carne e avaliaram que o outro lado pesava mais: o próprio Cristo.

Não admira que seja ele mesmo, o próprio Cristo, a anexar uma promessa para esses hábeis negociantes: em troca do “tudo” que deixaram”, “cem vezes mais casas, irmãos, mães, filhos e terras, com perseguições”, e no século vindouro, a vida eterna”. As coisas deste mundo passageiro amplamente superadas pelos horizontes da eternidade

Claro que uso a expressão “negociantes” em tom jocoso. Eles não faziam “negócio”, eles eram apaixonados! E um apaixonado não mede seus gestos, vai ao extremo. Seja o martírio dos padres mexicanos perseguidos pelo governo maçônico dos anos 30, seja o martírio diário da freira que cuida de leprosos, da “tia” que acolhe as crianças da creche como se fossem filhos, da professora que insiste em alfabetizar sem desistir por causa do salário indigno.

Ainda hoje, boa parte da sociedade não entende o sentido do celibato dos padres e das pessoas consagradas, pois não se tem a experiência de uma entrega totalizante a qualquer objetivo ou ideal, vivendo sempre “a meia força”, pesando e medindo cada esforço, cada sacrifício, incapaz de se apaixonar…

Claro, se nos fechamos à possibilidade de uma entrega plena, totalizadora, sem reservas, também fechamos a porta para as consolações do Espírito, para as inspirações do alto, para a plena realização de nossas pessoas.

Ao contrário, quando contemplamos a vida dos homens e mulheres que deixaram marcas em nosso tempo, como Gandhi, Dom Orione, Florence Nightingale ou Albert Schweitzer, verificamos o mesmo ponto de convergência: a decisão de sacrificar tudo por uma vocação assumida em plenitude.

Aos olhos do mundo, eles viveram uma perda, uma mutilação. Aos olhos de Deus, eles elevaram ao ponto mais alto a essência do ser humano: trocar tudo pelo amor…

Orai sem cessar: “As torrentes não poderiam extinguir o amor…” (Ct 8,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.