29/06/2015 –

Nem tocas nem ninhos… (Mt 8,18-22)

Um escriba se apresenta diante de Jesus e se diz disposto a segui-lo. Jesus prontamente recusa seu oferecimento. Entendidos na Lei mosaica, a Torah, os escribas eram conhecidos como “legistas” ou “doutores da Lei”. O povo tratava-os respeitosamente de rabi, isto é, de “meu senhor”.

Ora, Jesus conhecia muito bem as disposições interiores necessárias para segui-lo. Um rude pescador, como Simão Pedro, ou um áspero zelota, como o outro Simão, enfrentariam mais facilmente as dificuldades e asperezas da vida de discípulo. Por isso mesmo, Jesus começa por mostrar as condições de vida do próprio Mestre: ele não dispõe de tocas, como as raposas, nem de ninhos, como as aves do céu. Isto é, nenhum lugar de repouso, nenhum porto seguro. Pobreza total.

Seguir a Jesus significa, na prática, adotar o seu estilo de vida: carência de meios, ausência de seguranças, prestígio nenhum. Abrir mão de todo recurso que dispensasse a Providência do Pai. Tal como Jesus fizera na tríplice tentação do deserto. Obviamente, o escriba não estava à procura de uma condição assim…

Pode acontecer que nos deixemos iludir por uma falsa imagem da vida cristã, enfeitada de purpurinas e acolchoada de confortos. Ora, o caminho do cristão sempre foi áspero. E quanto mais o mundo se deixa paganizar de novo, tanto mais o seguimento de Jesus exigirá sacrifício e despojamento. Sem disposição para sofrer, é impossível ser fiel a Cristo.

Exemplo? Muitos casais cristãos preferem limitar drasticamente o número de filhos a viver uma vida sóbria e simples. Como justificativa, alegam que filhos dão trabalho, tomam todo o tempo e custam caro. Esses pais deixam de ter trabalho com os filhos para ter trabalho com o patrão. Deixam de gastar tempo com os filhos para gastar tempo com a TV. Deixam de gastar dinheiro com os filhos para gastar dinheiro com viagens, lazer e… cachorros! Estão seguindo a Jesus?

Talvez eles tenham certa razão. Se o número de filhos aumenta, talvez não possam ter um automóvel e andarão de ônibus. Talvez fiquem muito ocupados e tenham menos tempo para dormir. Talvez devam ocupar-se com os estudos das crianças e não poderão passear nos fins-de-semana. Esses pais de muitos filhos viverão cansados, esquecidos de si mesmos. Acabarão vivendo uma vida de pobres.

E assim acabariam vivendo tal como Jesus viveu: sem tocas nem ninhos. Verdadeiros discípulos…
Minha vida está parecida com a vida de Jesus? Ou ele ainda não me disse para deixar que os mortos enterrem os seus mortos?

Orai sem cessar: “Se vos possuo, Senhor, nada mais me atrai na terra!” (Sl 73, 25b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.