Nem dinheiro, nem sacola… (Lc 10,1-9)

De fato, Jesus não pensa como nós pensamos… Quando temos uma tarefa a assumir, nossa principal preocupação consiste em reunir os recursos, os meios, as ferramentas de ação. Jamais sairíamos de mãos abanando…

Não foi assim quando Jesus enviou as 36 duplas de discípulos à sua frente com a missão de preparar o caminho do Mestre. Quem comenta é o monge André Louf:

“As palavras que Jesus dirige a seus discípulos antes de enviá-los em missão, não são palavras fáceis. Elas não dissimulam em nada a extensão e a dificuldade do trabalho. Os meios que estarão à disposição deles, dos quais poderão ter urgente necessidade para o cumprimento da missão, não são previamente garantidos. Na partida, tais meios são até inexistentes: ‘Não levem dinheiro, nem sacola, nem sandálias’. O discípulo de Jesus não se carrega de nada inutilmente. Ele não se apoia sequer em relacionamentos humanos que lhe poderiam ser úteis em situações oportunas: ‘Não se demorem em saudações no caminho’”.

Que esperar de uma tarefa tão pesada com a extrema ausência de recursos? Dificuldades, é claro! Uma das perspectivas é que a mensagem deles seja rejeitada. Sendo assim, inútil insistir: sacudir a poeira dos pés e seguir adiante. E prosseguir na missão: anunciar a proximidade do Reino de Deus e… curar os doentes. Mas curar com quê? Não levam sacola com remédios, não são formados em medicina. Seria uma tarefa sobre-humana para aquela gente simples que Jesus reunira à sua volta?

Bem, com certeza não é uma tarefa “humana”. A missão do discípulo não pode ser realizada com recursos humanos. Não basta que o pregador domine a oratória. Não basta que o missionário domine o idioma estrangeiro. Não basta que o padre domine a ação litúrgica. É preciso algo mais…

Estamos falando da Graça de Deus. André Louf explica: “O operário do Reino não é tanto aquele que o anuncia, mas Deus em pessoa é que toma a palavra e opera através dele. Inútil sobrecarregar-se, onerar-se, levar-se demasiado a sério. Vale mais desembaraçar-se, despojar-se, a fim de deixar que Deus aja nele, mais que agir ele próprio”.

Está claro: é Deus quem age no discípulo. Falar pouco, ouvir muito. Deixar-se guiar, mais que guiar os outros. Abrir espaço para o Senhor…

Orai sem cessar: “Até ali, Senhor, a tua mão me guiará!” (Sl 139,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.