10/06/2015 –

Não vim abolir a Lei… (Mt 5,17-19)

Os primeiros pregadores da História da Igreja viram a necessidade de demonstrar que a novidade cristã não abolia os mandamentos do Sinai nem desprezava a rica contribuição das tradições de Israel. Um desses comentaristas foi S. Ireneu de Lião [+202]. Eis o seu ensinamento:

“Os preceitos naturais da Lei, isto é, aqueles pelos quais o homem se torna justo e que, mesmo antes do dom da Lei, observavam os homens que eram justificados por sua fé e assim agradavam a Deus, o Senhor não aboliu esses preceitos, mas os amplificou e levou à perfeição. ‘Se vossa justiça – disse Ele mesmo – não ultrapassar aquela dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus’. (Mt 5,20)

Imposta a escravos, a Lei educava a alma a partir do exterior e do corporal, conduzindo-a, como por uma corrente, até a submissão aos mandamentos, a fim de que o homem aprendesse a se ajustar com Deus. Mas o Verbo liberou a alma e ensina a purificar o corpo pelo interior, a partir da vontade e do coração.

Era preciso, desde então, que fossem suprimidas as cadeias da servidão graças às quais o homem pudera formar-se, e doravante ele seguisse a Deus sem correntes; mas também era necessário que fossem amplificados os preceitos da liberdade e fosse acrescida a submissão ao Rei, para que ninguém, voltando atrás, se mostrasse indigno de seu Libertador.

É por isso que o Senhor nos deu, como palavra de ordem, em lugar de não cometer o adultério, nem mesmo cobiçar; em lugar de não matar, nem mesmo nos pôr em cólera; em lugar de amar somente nossos próximos, amar também os inimigos; não somente ser generoso e pronto a repartir, mas ainda doar graciosamente nossos bens àqueles que no-los tomam: ‘A quem toma a tua túnica – diz Ele – dá também o teu manto’. (Mt 5,40).

Deste modo, não ficaremos tristes como pessoas que tivessem sido despojadas contra sua vontade, mas, ao contrário, nos alegraremos como pessoas que tivessem doado de bom coração, pois teremos feito um dom gratuito ao próximo, mais do que ter cedido à necessidade. ‘E se alguém – diz Ele – te obriga a fazer mil passos, faz com ele dois mil’ (Mt 5,41), a fim de não o seguir como um escravo, mas precede-lo como um homem livre.

Assim, em todas as coisas, tu te tornarás útil a teu próximo, sem considerar a maldade dele, mas levando ao cúmulo a tua bondade, e te tornarás semelhante ao Pai ‘que faz o sol erguer-se sobre os maus e os bons, e chover sobre os justos e os injustos’ (Mt 5,45).”

Esta era a pregação dos apóstolos, não muito preocupados em contestar as estruturas sociais de seu tempo, mas dedicados a orientar para Deus o coração dos homens.

A que se apega o meu coração?

Orai sem cessar: “A tua Lei, Senhor, é todo o meu prazer.” (Sl 119,174)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.