Não vim abolir a Lei… (Mt 5,17-19)

Os primeiros pregadores da História da Igreja viram a necessidade de demonstrar que a novidade cristã não abolia os mandamentos do Sinai nem desprezava a rica contribuição das tradições de Israel. Um desses comentaristas foi S. Ireneu de Lião [+202]. Eis o seu ensinamento:

“Os preceitos naturais da Lei, isto é, aqueles pelos quais o homem se torna justo e que, mesmo antes do dom da Lei, observavam os homens que eram justificados por sua fé e assim agradavam a Deus, o Senhor não aboliu esses preceitos, mas os amplificou e levou à perfeição. ‘Se vossa justiça – disse Ele mesmo – não ultrapassar aquela dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus’. (Mt 5,20)

Imposta a escravos, a Lei educava a alma a partir do exterior e do corporal, conduzindo-a, como por uma corrente, até a submissão aos mandamentos, a fim de que o homem aprendesse a se ajustar com Deus. Mas o Verbo liberou a alma e ensina a purificar o corpo pelo interior, a partir da vontade e do coração.

Era preciso, desde então, que fossem suprimidas as cadeias da servidão graças às quais o homem pudera formar-se, e doravante ele seguisse a Deus sem correntes; mas também era necessário que fossem amplificados os preceitos da liberdade e fosse acrescida a submissão ao Rei, para que ninguém, voltando atrás, se mostrasse indigno de seu Libertador.

É por isso que o Senhor nos deu, como palavra de ordem, em lugar de não cometer o adultério, nem mesmo cobiçar; em lugar de não matar, nem mesmo nos pôr em cólera; em lugar de amar somente nossos próximos, amar também os inimigos; não somente ser generoso e pronto a repartir, mas ainda doar graciosamente nossos bens àqueles que no-los tomam: ‘A quem toma a tua túnica – diz Ele – dá também o teu manto’. (Mt 5,40).

Assim, em todas as coisas, tu te tornarás útil a teu próximo, sem considerar a maldade dele, mas levando ao cúmulo a tua bondade, e te tornarás semelhante ao Pai ‘que faz o sol erguer-se sobre os maus e os bons, e chover sobre os justos e os injustos’ (Mt 5,45).”

Esta era a pregação dos apóstolos, não muito preocupados em contestar as estruturas sociais de seu tempo, mas dedicados a orientar para Deus o coração dos homens. A que se apega o meu coração?

Orai sem cessar: “A tua Lei, Senhor, é todo o meu prazer.” (Sl 119,174)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.