Não tereis a vida em vós… (Jo 6,52-59)

Jesus Cristo se autodefiniu como “caminho, verdade e vida” (cf. Jo 14,6). Não mera vida biológica (bios), que se desagrega com a morte, mas vida espiritual [zoé] que transcende o tempo da existência material, como participação na vida divina.

No discurso eucarístico de Jesus, em João 6, a palavra zoé (vida espiritual) aparece 9 vezes, além das várias repetições do verbo viver [záo], com a mesma raiz grega. E esta “vida” está sempre associada ao “pão de vida” – corpo e sangue de Jesus Cristo.

Ora, Jesus garante a ressurreição a todo aquele que se alimenta deste “pão”. E chega ao extremo de afirmar solenemente: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”. (Jo 6,53)

No mesmo “discurso” de Jesus, devemos levar em conta os verbos traduzidos por “comer”. Ora o evangelista João usa o verbo pháguein, ora o verbo trôguein, este último no sentido material de “mastigar”, acentuando o realismo dessa alimentação. Louis Bouyer, um ministro luterano francês, acentua a diferença entre os verbos:

“Nós não podemos expressar toda a força do que vem a seguir, pois o verbo grego trôguein, que nós traduzimos por ‘absorver’, é ainda mais claro; ele designa necessariamente uma manducação, e seu emprego aqui certamente é destinado a não deixar subsistir dúvida alguma quanto à materialidade do ato de que fala Jesus. É preciso igualmente acrescentar a insistência sobre a carne e o sangue que se come e bebe, em relação evidente com a consagração do pão e do vinho como corpo e sangue de Cristo, conforme a instituição da Eucaristia nos evangelhos sinóticos e na primeira Epístola aos Coríntios.”

“Assim – continua Bouyer -, Jesus ensina como sendo indispensável uma assimilação de seu ser humano pelo nosso, assimilação misteriosa, mas tão real quanto é possível, a efetuar-se em uma ação física concreta. Por meio daquilo que São Cirilo de Alexandria chama muito exatamente de união física, nós poderemos permanecer nele, e ele em nós. Assim se estabelecerá entre nós e ele uma união análoga àquela que existe entre ele e seu Pai, e cujo efeito será que poderemos possuir, no Filho, a Vida que ele recebe do Pai.”

Desde a encarnação do Verbo de Deus em Jesus Cristo, ninguém deve admirar-se de que a Vida transmitida pelo Espírito Santo – o mesmo Espírito que atua diretamente na hora da consagração, transubstanciando o pão no Corpo de Cristo, e o vinho em seu Sangue – nos seja comunicada por um meio material. Eis a maravilha dos Sacramentos da Igreja, onde a graça passa por sinais sensíveis, como a água, o óleo, o vinho, o pão e a palavra…

Orai sem cessar: “O Senhor é a força da minha vida!” (Sl 27,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.