5/05/2011 – Não tendes a vida em vós… (Jo 6,52-59)

Estamos diante de um contraste inevitável: ou vida ou morte! Vida para quem se alimenta do Pão de Vida, morte para quem não o come. O antigo maná não vacinou o povo contra a morte, foi um alimento perecível. Só o corpo e sangue de Cristo dão a garantia da vida eterna.

Jesus é realmente categórico: “Se não comeis a carne do Filho do homem e não bebeis o seu sangue, não tendes a Vida em vós mesmos!” (Jo 6,53) Daí o comentário de Louis Bouyer:

“Nós não podemos mostrar toda a força do que se segue, pois o verbo grego “trôguein”, que traduzimos por “absorver”, é ainda mais claro; ele designa necessariamente uma “mastigação”, e seu emprego aqui certamente se destina a não deixar subsistir nenhuma dúvida quanto à materialidade do ato de que Jesus nos fala. Igualmente, é preciso juntar a isto a insistência sobre a carne e o sangue que comemos e bebemos, em evidente relação com a consagração do pão e do vinho enquanto corpo e sangue de Cristo, conforme a instituição da eucaristia nos evangelhos sinóticos e na 1ª Carta aos Coríntios.”

Bouyer afirma que o ensino de Jesus mostra como indispensável uma assimilação de seu ser humano pelo nosso, assimilação misteriosa, mas tanto real quanto possível, e efetuando-se em uma ação física concreta. É exatamente esta a lição de São Cirilo de Alexandria ao falar de uma “união física”. E ainda as expressões fortes de São Cirilo de Jerusalém, ao afirmar que, pela comunhão eucarística, nós nos tornamos concorpóreos e consanguíneos de Jesus Cristo [syssomos / synaimos] (cf. Mistagogia 4,3; SC 120B, 136).

É fácil entender que Jesus tenha perdido numerosos seguidores depois de tais palavras. Para a sensibilidade dos judeus, era abominável comer carne com sangue, o equivalente a devorar um animal ainda vivo. Mesmo hoje, judeus (e também muçulmanos!) só se alimentam da carne de um animal que teve todo o seu sangue previamente escorrido. Os frigoríficos do Brasil que exportam para o Oriente têm de aceitar a presença de um inspetor que garanta esse processo.

É duro para a razão humana dar esse salto de qualidade e, ultrapassando as barreiras materiais, entender que Jesus nos apresenta um novo alimento, o único alimento essencial para nossa vida. Na oração do Pai-Nosso, muitos biblistas entendem que o pão ali solicitado não seja apenas o “pão de cada dia”, mas o “pão supersubstancial” [em grego, “arton epiousion” (Mt 6,31; Lc 11,3)].

Orai sem cessar: “Já não sou que vivo, é Cristo que vive em mim.” (S. Paulo)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança