Não é este o carpinteiro? (Mc 6,1-6)

Estamos diante de um caso de preconceito. Na Palestina daqueles tempos, o múnus de pregador cabia aos rabis, profissionais da palavra de Deus, devidamente formados para o ofício. Eram eles homens – nunca mulheres! – que recebiam do povo o máximo respeito e reverência. Afinal, representavam a legítima tradição mosaica, mantida século após século na reunião semanal da sinagoga.

Eis que surge, ninguém sabe de onde, um novo pregador. Ele prega diferente dos demais. Não fica citando a opinião de outros mestres, mas fala com autoridade pessoal. Não teme sequer fazer umas correções à Lei tradicional: “Vocês ouviram dos antigos… Eu, porém, vos digo…”

E da palavra ele passa à ação: cura cegos e surdos, faz andar os coxos, ressuscita os mortos. E, como se não fosse muito, ousa perdoar pecados. Daí o espanto geral: “Que sabedoria é essa? De onde lhe vem o poder?” E se escudam atrás dos muros do preconceito: “Afinal, não é ele tão somente o filho do carpinteiro?”

Faber, diz São Jerônimo. Carpinteiro. O ofício do pai, José. Aliás, naqueles tempos, os filhos davam prosseguimento ao ofício paterno. A profissão fazia parte da herança. E os judeus estão diante de uma ruptura incompreensível: um trabalhador braçal manifesta uma sabedoria das coisas do Espírito que nada pode explicar. Logo, deve ser um impostor…

Não sabemos o que devemos mais admirar: se um Deus que se encarna e assume a vida de um trabalhador braçal, ou a ação do Espírito Santo que pode transformar em mestre um homem do povo… Não sabemos o que devemos mais reprovar: a grosseria de um preconceito que cega ou a má vontade em acolher os imprevistos de Deus…

Também hoje Deus continua a fazer que nossos olhos fiquem piscando diante do incompreensível: o santo que se oferece para substituir um condenado à morte, a freira que abandona seu convento para cuidar dos mendigos, o profissional da saúde que arisca sua vida para cuidar de doenças contagiosas…

E também hoje somos desafiados a olhar para Jesus e tomar uma decisão que compromete toda a nossa vida. Acolher ou… rejeitar…
Orai sem cessar: “Senhor, eu te seguirei aonde fores!” (Lc 9,57)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.