Não devias tu também? (Mt 18,21-35)

Este Evangelho pode chamar a atenção de nossos financistas, economistas, auditores e contabilistas, e todos aqueles que “mexem” com dinheiro e contas a pagar. É que a parábola de Jesus está centrada no verbo “dever”. Aquele mesmo verbo que ocupa uma das três colunas dos livros contábeis: DEVE / HAVER / SALDO.

Um grande devedor recebe uma grande anistia, sinônimo de perdão. Mal se vê livre da conta a pagar, o anistiado sai a cobrar a pequena dívida do companheiro, chegando ao extremo de obter sua prisão. Em consequência, o cobrador cruel tem anulada a sua anistia e é entregue aos carrascos…

Eu devo e sou perdoado. Não devo mais? Claro que devo! Devo ainda mais do que antes! DEVO o perdão a todos aqueles que me devem, pois a mesma misericórdia que me agraciou, agora me comprime a ser uma imagem da misericórdia. Um devedor não pode ter a cara de pau de se alçar como cobrador. Daí, a resposta de Jesus a Pedro: perdoar, sim, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete: isto é, sempre, sem limites, sem reservas… Dai, a pergunta do “rei” ao servidor cruel: “Não devias tu também?”

O teólogo Hans Urs von Balthasar comenta a mesma passagem: “Há poucas parábolas no Evangelho com uma força tão espantosa, não se pode fazer nenhuma objeção a ela. Nem existe outra que nos ponha diante dos olhos, de modo mais dramático, a amplitude de nossa culpável falta de amor: continuamente nós exigimos de nossos semelhantes aquilo que, ao nosso ver, eles nos devem, sem considerar por um instante a falta que Deus nos perdoou por completo. Nós costumamos rezar distraidamente o Pai-Nosso: ‘Perdoai as nossas ofensas, como nós também perdoamos…’ Mas nós não refletimos como dificilmente renunciamos à nossa justiça terrestre, em comparação com aquilo que Deus renuncia em nosso favor pela justiça celeste.”

Deus não nos deu uma Lei para nos tornarmos juízes dos outros, mas para que tomemos consciência de nossa incapacidade de cumpri-la sem a graça divina. O Evangelho não nos oferece exigências de santidade para condenarmos os “fora-da-lei”, mas para que nos apoiemos na força de Deus, que supera toda fraqueza humana.

Dever. Voltemos ao verbo dever. Há uma conta a pagar. É dívida monstruosa. A dívida do meu pecado. Que fez o divino Juiz? “Deus anulou o documento que nos era contrário, e o eliminou, cravando-o na cruz.” A fatura que eu devia pagar tornou-se ilegível, pois os algarismos da conta estão borrados de vermelho: o sangue do Filho que morreu por mim.

Orai sem cessar: “Ao Senhor pertence a misericórdia e o perdão.” (Dn 9,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.