Muitas moradas… (Jo 14,1-6)

Logo no início de seu Evangelho, João registrou a pergunta que dois futuros discípulos dirigiram a Jesus: “Mestre, onde moras?” (Jo 1,38) Óbvio, quem pergunta pela morada de Jesus está interessado em morar com ele. Eram eles André e o próprio João. E logo o seguiram, conviveram com ele cerca de três anos, mas agora chegou a hora da despedida: “Por pouco tempo eu ainda estou convosco…” (Jo 13,33)

Como consolar os seus discípulos que agora se angustiam com a iminente separação? Jesus acena-lhes com um reencontro: “Não se perturbe o vosso coração… Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós. E depois que eu tiver ido e preparado um lugar para vós, voltarei e vos levarei comigo”. (Jo 14,1-2)

Jesus não está dizendo que essas moradas são “diferentes”, mas “numerosas”. Longe de pensar em uma espécie de hierarquia celeste, onde o mais santo tem um apartamento mais espaçoso. Trata-se de uma referência à “amplitude” da salvação. O “lugar” anunciado por Jesus terá espaço para gente muito variada, de várias línguas, de diversos ritos, dos grupos mais diversificados.

Estranho? Claro que não! O próprio Jesus tinha anunciado: “Quando eu for levantado da terra, atrairei TODOS a mim”. (Jo 12,32) Isto é, o sacrifício redentor no alto do Calvário irradia a salvação em dimensões universais. Não devemos estranhar se encontrarmos no céu (a misericórdia de Deus no-lo permita!) gente bastante diferente de nós. Afinal, o mesmo céu foi reinaugurado por um bandido: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso!” (Lc 23,43)

Não estou afirmando que o inferno ficará vazio. Não tenho como saber disso. Mas creio firmemente que a misericórdia divina nos deixará de boca aberta. E os “justos” agraciados pelo Salvador não serão apenas o pequeno grupo de que fazemos parte. Jesus Cristo não fundou uma “igrejinha”, um partido de privilegiados, uma academia de iniciados. O próprio Apocalipse faz o censo de uma “multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”. (Ap 7,9)

Aqui na terra, habitamos em tendas, não temos morada permanente. Paulo ensina: “De fato, sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá outra moradia no céu, que não é obra de mãos humanas e que é eterna. Aliás, é por isso que gememos, suspirando por ser sobrevestidos com a nossa habitação celeste”. (2Cor 5,1-2)

Resumindo, no céu não existirá nenhum sem-teto…

Orai sem cessar: “Como são amáveis tuas moradas, Senhor!” (Sl 84,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.