Meu filho bem-amado… (Mc 9,2-10)

Tal como Moisés, no Antigo Testamento, fora chamado à montanha (cf. Ex 19,3) para ouvir a voz do Senhor, agora Jesus, o novo Moisés, leva consigo três apóstolos ao Tabor e se transfigura diante deles. Sem dúvida, um privilégio especial para Pedro, Tiago e João que, como os demais discípulos, estavam acostumados à visão puramente humana de seu Mestre, que repetidos milagres não conseguiam apagar.

Este é o momento de uma revelação única, quando a humanidade de Jesus aparece transfigurada, irradiando aos olhos dos três uma amostra da glória divina. Era um Jesus “diferente”, com nova forma [no texto grego, metemortphóthe], e com uma alvura sobre-humana. E, como se não bastasse, ouve-se da nuvem a voz do Pai, que identifica Jesus: – “Este é meu filho, o Amado, escutai-o!” A partir de então, eles têm a experiência da divindade de seu Mestre.

Qual teria sido a intenção de Jesus ao convocar Pedro, Tiago e João para aquela visão inovadora? São Leão Magno [395-461 d.C.] responde: “Ao se transfigurar daquela maneira, sem dúvida Jesus tinha como objetivo arrancar do coração de seus discípulos o escândalo da cruz, e fazer com que a ignomínia voluntária de sua morte não pudesse desconcertar aqueles diante dos quais se manifestaria a excelência de sua dignidade oculta”.

Tratava-se, pois, de uma autêntica vacina contra o futuro choque causado pela Paixão e morte de Jesus. É como se o Pai dissesse: “Este é meu Filho que, permanecendo na condição de minha glória, e para executar nosso desígnio comum da restauração do gênero humano, rebaixou a imutável divindade à condição de escravo”.

São Leão Magno empresta ao Pai estas palavras: “Escutai-o sem hesitação, pois ele é verdade e vida; ele é meu poder e minha sabedoria. Escutai aquele que os mistérios da Lei anunciaram e que a voz dos profetas cantou. Escutai aquele que resgata o mundo por seu sangue, que acorrenta o diabo e lhe toma as armas, que rasga o documento da dívida e o pacto da prevaricação. Escutai aquele que abre o caminho do céu e que, pelo suplício da cruz, vos prepara os degraus para subir ao reino”.

O Padre da Igreja conclui: “Estas coisas não foram ditas apenas para a utilidade daqueles que as ouviram com os próprios ouvidos. Nesses três apóstolos, é a Igreja inteira que aprende tudo o que foi visto pelos olhos deles e percebido por seus ouvidos. A voz do Pai que se fez ouvir deve ressoar sempre aos nossos ouvidos: ‘Este é meu Filho bem-amado, em quem eu me agrado. Escutai-o!’”

Após a revelação do Pai, nós sabemos quem é Jesus: mais que um profeta, que um reformador social, mais que um super-homem, Jesus Cristo é o Filho de Deus.

Orai sem cessar: “Nós ouvimos, Senhor, com nossos ouvidos…” (Sl 44,2)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.