25/03/2016 – Mete a espada na bainha! (Jo 18,1 – 19,42)

Os discípulos de Jesus não eram propriamente uns pacifistas… Além das frequentes altercações no interior do grupo, dois deles até ganharam o apelido de “filhos do Trovão” [os Boanerges], por manifestarem a intenção de invocar o fogo do céu sobre os samaritanos (Mc 3,17).

Convém lembrar que a Palestina estava sob dominação romana. As águias das legiões invasoras estavam por toda parte. Ainda que as autoridades religiosas e os herodianos compactuassem com a ocupação (e até lucrassem com isso!), no meio do povo havia um ódio surdo contra Roma. Houve revoltas populares e uma guerrilha permanente movida pelos zelotas. Os exegetas reconhecem um ou dois zelotas entre os Doze, em especial o segundo Simão (cf. Lc 6,15). Em outra passagem, o Evangelho registra que entre os Doze havia “duas espadas” (Lc 22,38).

Hoje, no momento da prisão de Jesus, Simão Pedro saca da espada e fere a cabeça de um dos homens enviados pelos sacerdotes do Templo, decepando-lhe a orelha. A pronta reação do Senhor foi um imperativo seco: “Mete a espada na bainha!” E, de imediato, tocou a ferida do servo, curando-o (Lc 22,51).

Creio que este exemplo é suficiente para que todo cristão desista, de uma vez por todas, do uso da violência para corrigir os erros individuais e sociais. Quando, nos últimos tempos, setores cristãos adotaram métodos e conceitos marxistas para “construir o Reino”, estimulando a luta de classes e acendendo rastilhos de ódio como reação aos pecados do sistema, certamente não seguiam os ensinamentos de Cristo.

Jesus se entrega. Abandona-se nas mãos de seus algozes. Nos primeiros tempos da Igreja, todo cristão sabia que seu futuro incluía os leões da arena e os carrascos do Imperador. E era com alegria – e sem ódio! – que eles enfrentavam o martírio no Coliseu e os trabalhos forçados nas minas de metal.

Jesus é o manso cordeiro antevisto por Isaías: “Brutalizado, ele se humilha, não abre a boca; como um cordeiro é arrastado ao matadouro, como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores, ele não abre a boca.” (Is 53,7) É a esse mesmo Cordeiro de Deus que nos dirigimos, em cada Eucaristia, pedindo a paz: “Cordeiro de Deus / que tirais o pecado do mundo / dai-nos a paz!”

Ora, como pediremos a paz se tambores de guerra ruflam permanentemente em nossos corações?

Orai sem cessar: “Escuto o que diz o Senhor; Ele diz: ‘Paz’.” (Sl 85,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.